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RICHARD SWIFT
DE UM TEMPO AUSENTE
Da Califórnia também chega música pretensamente fora de moda. Richard Swift, um ilustre californiano, decidiu fixar-se num elegante open space em Manhatan com vista panorâmica sobre Nova Iorque para falar do amor como poucos.

“Discover America” de Van Dyke Parks pode ser hoje uma raridade arqueológica, o mesmo tratamento têm “American Gothic” de David Ackles ou a obra recentemente editada do obscuro Bill Fay. No entanto, estas peças de referência cultural, de um período expansivo da América, tendem a diluir-se no tempo como um mero produto biodegradável.

É porém indissociável destas obras e destes artistas a proliferação de uma imensa fornada de novos songwriters vocacionados para a canção orquestral como Neil Hannon, Ed Harcourt ou Jens Lekman. Richard Swift é um dos mais quentes da fornada, não só porque acaba de ser revelado a um restrito mundo de aficionados, mas também porque não partilha da teatralidade de Neil Hannon ou do humor naive de Jens Lekman. Antes pelo contrário, o artista parece levar muito a sério a sua missão, o seu target está bem definido o que equivale a dizer que tem pernas para andar.

Em dose dupla, a Secretly Canadian, compila os dois únicos discos de Swift que foram outrora revelados em edição de autor. “The Novelist/Walking Without Effort” dois títulos para um lote de canções agrupadas num único CD que bem poderiam surgir de forma aleatória que o ouvinte bem se estaria nas tintas. Pela cronologia percebemos que as dezassete composições agrupadas são de facto de períodos distintos ou pelo menos de estados de espíritos diferentes. Em “The Novelist”, mais experimental e à partida menos previsível, redescobrem-se as genuínas orquestras de Dixieland, reabrem-se as portas da Broadway e assume-se o romantismo que, como hoje se costuma dizer, só dignifica o espectáculo. Existe música sim e bem boa, mas até aqui nada nos faz perder o bom senso. Entra-se no jogo e em menos de nada percebe-se a metamorfose para um Richard Swift mais íntimo e requintado, misto de criatura da noite aburguesada, perdida entre copos e paixões ardentes.

Estamos já a calcar o inquestionável terreno de “Walking Without Effort” e é aqui que entra o fantástico apartamento em Manhatan, onde o silêncio da cidade em repouso é cortado por tremendas canções, a roçar a pop de sofá, ganhas como um prémio merecido depois de um dia de loucos. Afinal o dia tem tantas horas que seria um desperdício não aproveitar a noite, especialmente ao piano em “Not Wasting Time”, ou perdendo o olhar pela imensa cidade luz. Afinal, a música de Richard Swift ecoa com a mesma paixão em Londres, Paris, Nova Iorque ou Lisboa, só precisa de noite e de uma luz ténue.

Richard Swift não tem um passado de relevo, mas no seu presente está todo esse passado. Não na variante operária e neo-realista de David Ackles, nem na obsessão perfeccionista de Burt Bacharach, a verdade é que quando se mudam os tempos, mudam-se as vontades e as canções de Swift parecem conter aquela luzinha mágica que se reflecte e se espalha em cada um de nós.

Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 24)