RJD2
ALQUIMIA E INDIFERENÇA
De que falamos quando falamos de hip hop? Nos dias que correm de muitas coisas distintas. Uma delas é "Deadringer", o novo álbum de Rjd2, sério candidato aos lugares cimeiros do pódio na categoria "melhor álbum de hip hop do ano". Ouçam-no com atenção.
Quando Rjd2, no apropriadamente intitulado "Salud", debita uma introdução falada do seu álbum de estreia, já "Deadringer", o disco, começou ao som de "The Horror", um exercício de hip hop instrumental que à batida certeira acrescenta a lancinante e desconfortável descarga daquilo que se assemelha a uma sirene de bombeiros. Ou seja, Rjd2 apresenta-se em nome individual depois do primeiro tema. Da mesma forma que se infiltrará, depois deste primeiro álbum, no naipe dos mais respeitados produtores norte-americanos do hip hop tido como underground. Militando num catálogo que tem, nos tempos mais recentes, ajudado a escrever a contemporaneidade do hip hop e em que se destacam nomes como os Cannibal Ox e El-P, Rjd2 tem, à custa de "Deadringer" e de produções anteriores menos populares, assegurado o estatuto de exército de um homem só, surgindo neste contexto forçosamente nomes como os de DJ Shadow ou Moby. Do primeiro, Rjd2 aproveita a fome de aventura, as experiências alquimistas realizadas no recato de um estúdio caseiro. Ao segundo, o músico norte-americano resgata a tendência para transformar aquilo que à primeira vista parece uma amálgama de batidas, samples e sequências em arremedos de canções.
Nascido no estado norte-americano do Oregon em 1976, Rjd2 viria a ser criado em Columbus, Ohio, onde trabalhou com os Megahertz. É, no entanto, com "Deadringer" que o artista se coloca em posição avançada para a tomada do hip hop pelo lado menos óbvio, aquele que não vive apenas de produtores talhados para os grandes mercados ou rabos femininos de fino recorte estético. Rjd2 joga noutro campeonato, o do reconhecimento pela capacidade de juntar, por exemplo, a urgência do devir com a velha escola que se consolidava nas pistas de dança. O resultado é, sem hesitação, música com alma, com profundidade emocional, que raramente precisa de palavras. A emoção pode, como em "Ghostwriter" ser simplesmente o prazer da fruição, que chega mesmo a ter contornos físicos. Tido como um dos grandes álbuns de hip hop de 2002, sabendo-se que a colheita foi, regra geral, generosa em matéria de hip hop, "Deadringer" recorre apenas a três faixas com vocalização feita para o efeito - "Final Frontier" conta com Blueprint, "F.H.H." com Jakki e "June" com Copywrite, projecto cujo primeiro single, "Holier Than You", foi precisamente produzido por Rjd2. O todo é, à primeira vista, uma visão estraçalhada de uma urbanidade que castra a criação. Simplesmente, é desse aparente emparelhar de informação, boa e má, que nasce uma obra que rapidamente se transforma em qualquer coisa de familiar ao utente. E, no meio de tudo isto, "Deadringer" é um álbum discreto, apesar da forma não menos que exímia como o autor utiliza um imaginário em que habitam, em conjunto, luz e sombra, a felicidade daquilo que dispõe bem e o incómodo causado por aquilo que preocupa. É discreto, diga-se, mais por força do contexto actual do que pela própria génese do disco. O contexto actual, no que ao mercado diz respeito, atira para longe do reconhecimento quem procura algo de verdadeiramente seu. Ao mostrar uma perfeita e deliciosa indiferença pela ditadura da indústria do disco, Rjd2 deixa, por exemplo, claro perante Moby que a música não se esgotou depois de "Play". Aproveitai e deixai o decadente conceito da "banda sonora imaginária" para outras ocasiões. Ah! O nome verdadeiro de Rjd2? Não sei.
Pedro Gonçalves
(Mondo Bizarre # 13)
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