RUFUS WAINWRIGHT
QUERER É PODER
Depois de “Poses”, pouco ou nada havia a provar: Rufus Wainwright é um dos grandes compositores da nossa querida pop. Depois veio “Want One” e o mundo ficou à espera de mais. “Want Two”, o seu fiel sucessor, anuncia: não há luxo que não dê em fartura.
É oficial: Rufus Wainwright é um mãos-largas. Depois do ultra-requintado e luxuoso – de outra forma não poderia ser – “Want One” e do EP em forma de aperitivo “Waiting For A Want”, Rufus Wainwright está de volta com o ansiado “Want Two”. Inicialmente pensado para ser lançado juntamente com “Want One” como um disco duplo, “Want Two” é o segundo e último disco da série “Want”.
Tal como havia sido prometido, este segundo volume é mais obscuro e sombrio do que o seu antecessor, mas não se pense que as coisas mudaram assim tanto: a sumptuosidade dos arranjos, a perfeição das composições, os laivos de ópera e a beleza quase faustosa são características que continuam presentes, não fosse Rufus Wainwright um perfeccionista. As letras continuam a incidir especialmente na sua vida pessoal e desta vez surgem com um tom particularmente revelador e intimista. De resto, em “Want Two”, cada instrumento, cada pequeno detalhe, cada pormenor nos arranjos parece ter sido preparado com toda a minúcia – e no entanto, tudo parece tão natural, tão genuíno.
Já é certo e sabido que Rufus Wainwright vive com o desejo de fundir a pop com a ópera; já lhe são conhecidas as raízes, e muito mais importante que isso, o seu propósito. Há qualquer coisa de desarmante nas suas composições e talvez seja o fácil identificador comum, a forma como as suas canções se transformam facilmente em espelhos onde instantaneamente se reflectem as mais puras das verdades. E não são espelhos vulgares: são espelhos adornados pela eterna beleza da pop – aqueles em quem se confia há tanto tempo, para os melhores ou para os piores momentos. Aqueles que nunca abandonam quem os procura.
Com alguma surpresa, “Agnus Dei”, a faixa que abre “Want Two”, vê Rufus Wainwright mover-se por territórios que não lhe havíamos visto mover ainda. Em latim, Rufus faz um apelo à paz mundial e à absolvição, rodeado por ambiências misteriosas e espirituais.
A passagem de testemunho é feita com “The One You Love”, um tema que, vá-se lá saber porquê, nasceu para ser single e entoar ad eterno nos ouvidos dos apaixonados. Há um coro de vozes quase angelical, guitarras e pianos decorativos, um clímax, muito algodão doce e há até um desejo urgente: “Let's fuck this awful art party / Want you to make love to me and only to me in the dark”. À simplicidade e quietude de “Peach Trees” – uma refrescante e romantizada visão de alguém que espera pelo verdadeiro amor debaixo de uma árvore enquanto tenta fugir a uma malfadada rotina – segue-se a pomposa “Little Sister” onde os arranjos se elevam a proporções clássicas, tal a sua magnificência.
Erigida por um piano, “The Art Teacher” – gravada ao vivo – descreve uma paixão platónica por um professor de arte com a ajuda de um piano. Em “Gay Messiah”, uma curiosa paródia, Rufus canta: “Better pray for your sins / 'Cause the gay messiah's coming”. Mas sem perder o fôlego, remata: “No, it will not be me / Rufus the Baptist I be”. A belíssima “Memphis Skyline”, já perto do fim, é uma canção merecidamente dedicada a Jeff Buckley. Segundo volume; mais um corrupio de sensações à flor da pele.
André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre # 21)
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