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RYAN ADAMS
PURO OURO
Possuidor de um enorme e abrangente gosto musical e de uma originalidade e talento honráveis, Ryan Adams é personagem aqui digna de destaque, não só por estes atributos mas sobretudo pela virtuosidade artística com que continua a desbravar caminhos numa sólida mas muito diversificada carreira a solo, cuja saga movimentada prossegue com este surpreendente "Gold".

E surpreendente porque "Gold" representa uma ousada viragem sonora na carreira deste nova-iorquino, seja o termo de comparação os ainda muito conceituados mas já extintos Whiskeytown de que era líder (banda que bebia inspiração essencialmente no country e no rock, fazendo dessa síntese belas melodias) seja o seu álbum de estreia a solo, "Heartbreaker".

Assim, onde outrora (entenda-se em "Heartbreaker") imperava a beleza acústica das guitarras (ainda que sempre acompanhadas de diversos instrumentos), bem como a rouquidão harmónica da soberba e vasta voz de Adams, agora reina a simbiose perfeita de algumas das suas principais influências musicais, sobretudo da década de 70. Encontramos então por aqui pop/rock'n'roll clássico (daquele que ninguém faz hoje, ou seja, mais roll que rock), blues, soul, ou ainda o country, e mais um pouco disto ou daquilo, num disco também pautado pela enorme versatilidade vocal do cantor, que adquire diferentes timbres quase de canção para canção, e marcado também por uma contagiante atmosfera de optimismo quase omnipresente, isto mesmo quando os motivos das letras continuam a andar à volta de desencantos amorosos ou do amor repartido entre Nova Iorque e L.ª, com Nashville à mistura. E é exactamente com a velocidade "storytelling" deliciosamente pop de "New York, New York" que o álbum abre, sendo aqui que esse mesmo eterno amor pela referida cidade é confessado. Segue-se a alegria rasgante da harmónica de "Firecracker", ou ainda o tom envolvente à la Van Morrison de "Answering Bell". Mais melancólico e reflexivo é "La Cineya Just Smiled" bem como "Sylvia Plath" (em que Adams soa incrivelmente semelhante a Cat Power), ao contrário da energia que emerge do crescendo blues e dos coros soul de "The Rescue Blues" e do ainda mais impetuosamente soul "Touch, Feel, Lose". E se o angélico "When The Stars Go Blue" é a balada mais bonita do disco e do ano (e olhem que por aqui há muitas), na energia mais rock de "Enemy Fire" e "Tina Toledo's Street Walkin' Blues" a admiração de Adams por Neil Young e pelos Rolling Stones são bem visíveis.

E poderia continuar a descrever mais algumas destas dezasseis faixas ("Gold" estava inicialmente previsto para ser um álbum duplo), bem como referir alguns outros nomes aqui influentes, como John Hammond, Joni Mitchel, Bob Dylan ou Bruce Springsteen, ou mesmo dizer que é grande a variedade de instrumentos utilizados e o rol de convidados que por aqui desfilam (Jen Condos, Julianna Raye, Ethan Johns - também produtor, etc), mas o essencial será mesmo reconhecer que Ryan Adams é um dos artistas mais originais, ousados e criativos que por aí andam, e que merece tudo menos ser votado ao esquecimento. E de certeza que não o será com este digníssimo sucessor de "Heartbreaker", o qual, perdendo pontos em relação à beleza acústica confessional daquele, não perde certamente pela lufada de ar fresco que traz ao panorama musical, sendo, por tudo isso e muito mais, ouro para os nossos ouvidos.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 9)