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SANDY DILLON
BIZARRAS MALDIÇÕES
Tarefa difícil falar de Sandy Dillon e do seu mais recente álbum "East Overshoe". Isto porque não existe ninguém a cantar desta forma, nem a subverter formas tradicionais de canção de inspiração blues de uma forma tão criativa, bizarra e irresistível como esta respeitosa senhora o faz. Um universo de bruxas e fantasmas que é indispensável descobrir...

Universo esse que já nos anos 80 teve rasgos de criatividade registados, mas infelizmente quase todos esses discos se encontram actualmente indisponíveis. Contudo, já em 99 fomos deliciosamente surpreendidos em "Electric Chair" por esta voz estranha, imponente, impressionante na sua rouquidão que bebe força nos blues e no country, situando-se entre uma Diamanda Galás, uma PJ Harvey e sobretudo um Tom Waits. Surpreendidos por todo um imaginário rural onde aparentemente tudo é calmo, mas na realidade se passam eventos mais sórdidos e bizarros que nas grandes cidades ou em qualquer outra parte, eventos esses que não deixam de figurar com toda a sua magnificência neste "East Overshoe". Disco ainda mais apelativo e sólido que o antecessor, onde se continua a desconstruir valores e fórmulas musicais regulares, sem se perder um sentido de canção, e dando origem a algo que a própria cantora apelida de "twisted country" ou "deconstructive mutated blues", cuja riqueza sonora advém em grande parte da enorme quantidade de instrumentos tradicionais que possui, sabiamente utilizados no seu conjunto.

É então neste ambiente de conto de fadas negro, divertido e travesso, e sob estruturas instrumentais que tanto podem ser corriqueiras como densas, para as quais muito contribuem os mandolins, banjos, um velho órgão Hammond, acordeões e impetuosos teclados (e só para citar alguns) que Sandy nos relata, com uma intensidade visceral como que amaldiçoada, estórias de incesto e religião, ou exprime o seu pesar e desejo amoroso, nesse universo de traição, vingança, desejo, mistério e sabe-se lá que mais.

Um disco que tanto pode ser apocalíptico e tribal, como apenas brejeiro e trovadoresco, e que é certamente uma das melhores receitas sonoras deste ano.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 9)