SIGUR RÓS
A CRIATURA CRESCE
São sinfónicos e fazem uma música maior que a vida. Decisões arriscadas que acabaram num sucesso a nível mundial. Daí que com todos os olhos em cima, os islandeses tenham decidido ser mais cautelosos produzindo um álbum a que nem sequer deram nome. No fundo é só mais uma fase na materialização deste espírito desencarnado da pop que se chama Sigur Rós.
Foram a última das "next big things" do Milénio passado. Agora são apenas mais uma banda em quem recaem expectativas enormes. Talvez com essa consciência, os islandeses demoraram bastante a gravar o novo álbum num estúdio construído para o efeito, depois de terem testado exaustivamente as suas canções ao vivo. Algumas daquelas que, aquando da passagem pelo C. C. B. em 2000 ninguém reconheu, mas que não deixaram de encantar os que já estavam rendidos à sua música. Os Sigur Rós foram então bastante cuidadosos com o próximo passo a seguir a uma inesperada glória, e daí que tenham elaborado as canções de "( )" de forma a torná-las o mais sólidas possível. Há aqui, portanto, menos surpresa e espontâneidade do que em "Ágaetis Byrjun" e muito menos experimentalismo do que na estreia, "Von", mas em contrapartida um trabalho de artesão mais experiente. Na verdade, e de qualquer dos modos, a surpresa já não poderia ser nunca a mesma, dado o que se falou e especulou sobre a banda, os inflamados defensores e detractores do colectivo a debaterem se seria este mais um grande logro da música pop ou uma genial visão arredada dos esquemas do costume, por isso é natural que a banda também não utilizasse os mesmos métodos. A discussão pode continuar, mas a certeza é que os Sigur Rós não são definitivamente uma banda qualquer. São antes de tudo um colectivo que aspira a uma beleza que tem tanto de grandioso quanto de doentio e que se pretende para lá do instante e das coisas da vida normal. É uma vontade enorme, simultâneamente sonhadora e pretenciosa, que, ao arriscar nesse modelo sinfónico que se alimenta de um aparato profundamente emocional e em determinados momentos quase roça o pomposo, dá azo a paixões e divide os gostos. As oito faixas sem nome - e tudo aqui parece fazer parte de uma estratégia de despojamento que pretende evitar as rotulações e as ideias feitas - deste novo "( )" são a reafirmação de uma banda que já perdeu uma certa dose de inocência, mas que mais que pretender fazer render uma fórmula se pretende solidificar e afirmar como uma identidade única e madura. O bebé de "Von", e depois o anjo alienígena de "Ágaetis Byrjun", cresceram, portanto, tornando-se numa criatura ainda volátil mas mais sábia e mais próxima da terra. Dir-se-ia que está prestes a materializar-se, o que poderá ser o seu movimento fatal. De facto, quantas vezes mais poderão os Sigur Rós repetir esta música no futuro sem perderem a chama da novidade? Para já, no entanto, essa não é a questão. A voz de Jon no seu "hopelandish" indecifrável - se fosse islandês ia dar ao mesmo - continua a assombrar quem estiver disposto a abrir todos os seus sentidos e a deixá-los arrastar pelo uivo do arco nas cordas da guitarra. O piano faz-nos levantar vôo na sua simplicidade desarmante, enquanto o baixo nos agarra pelas entranhas não nos deixando despegar desta tragédia surreal. É verdade que a música dos Sigur Rós é manipulatória e alienante, mas este tipo de alienação tão profundamente cativante não é fácil de encontrar nos nossos dias. E se calhar, de vez em quando, precisa-se de algo de maravilhoso nas nossas vidas. O risco que os Sigur Rós tomam por seu é o que mais perto do maravilhoso, do quase religioso, a música pop tem para nos oferecer. Se é um embuste, é um embuste muito muito belo.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 13)
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