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SLEATER-KINNEY
FEROZ GRITO DE INDEPENDÊNCIA
"One Beat" é já o quinto álbum das fabulosas Sleater-Kinney, três raparigas cheias de genica ainda e sempre enamoradas com o punk rock, mas não rejeitando "flirtar" com a pop, soul ou new wave. Rock'n'roll em estado puro, com montes de estilo, atitude e talento que fazem delas provavelmente a mais importante e influente banda feminina dos nossos dias.

Quando, em plenos anos noventa, as Sleater-Kinney surgiram com o álbum de estreia "Call The Doctor", os estragos que o fenómeno "riot grrrrl" tinham provocado no underground americano, bem como o seu considerável impacto em alguma imprensa mainstream, eram factos bem presentes na memória de todos os que acompanham as movimentações na esfera indie. O fenómeno morreu e as Sleater-Kinney foram crescendo. A sua música tornou-se, com o tempo, mais acutilante e sofisticada mas nunca perdeu a urgência herdada dos ensinamentos punk. Da crueza de "Dig Me Out" (para muitos "a" obra prima) ao alargamento de horizontes musicais dos álbuns "The Hot Rock" e "All Hands on the Bad One", o percurso da banda de Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss tem sido marcado por uma constante determinação em chegar mais longe. Movidas pela curiosidade e por uma natural rebeldia que só lhes fica bem, as moças foram aperfeiçoando as suas qualidades como compositoras, aliando a sensibilidade à inteligência. Num cenário rock dominado por homens, as Sleater-Kinney são uma saudável alternativa aos clichés do género, criando o seu próprio mundo onde liberdade, individualidade, política, ideias, paixão e humor são palavras de ordem. O charme destas moças passa muito pelo facto de expressarem a sua feminilidade, claro, mas sem fazerem disso uma bandeira, preferindo acima de tudo expressarem-se como seres humanos, para lá da dualidade homem/mulher.

"One Beat" não se distancia da topografia sonora característica das Sleater-Kinney: as vozes de Corin e Carrie ora completam-se ora colidem, criando um jogo vocal rico e fluído, as guitarras tanto investem em "power chords" como se deleitam em criar tapeçarias de riffs angulares e retorcidas, combinando na perfeição com a pulsão maníaca da fantástica Janet Weiss (só Meg White, dos White Stripes, consegue ser ainda mais "cool"), responsável por boa parte da tensão e força que alimenta esta música. As canções soam orgânicas, com frequentes piscadelas de olho à pop e new wave e arranjos complexos que incluem cordas, metais, theremin e sintetizadores, mas o que mais fascina nesta banda é a sua jubilante energia e felina paixão por rock'n'roll, pleno de vitalidade e muito "in your face"! As palavras são cantadas por vezes de uma forma muito directa e é evidente a inclinação do grupo para os cantos mais obscuros da condição humana, com as guitarras psicóticas e ritmos turbulentos a providenciarem o ambiente adequado. Ouvindo pérolas como "Far Away", "Oh", "Light-Rail Coyote", "Combat Rock" ou "Pristina" fica a convicção de que enquanto existirem bandas como esta, o rock'n'roll continuará vivo e de boa saúde.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 13)