THE SMITHS – Hand In Glove
Verdes Anos
1982 foi um ano curioso. O Mundial de Futebol realizado em Espanha deu a conhecer ao mundo o saudoso Naranjito, essa mítica laranja futebolista que personificava ídolos da altura, de Sócrates a Paolo Rossi passando por um promissor Diego Maradona. E na música os Duran Duran misturavam o vigente electro-pop com o funk branco e um denunciado tempero glam mas ainda não se desconfiava que “Rio” seria uma obra de referência vinte anos depois.
Ultrapassado estava, de vez, o punk britânico que voltou a colocar – durante alguns meses, dizem as más-línguas – as calças sujas e os cabelos desgrenhados nas tabelas de discos mais vendidos. E se os Sex Pistols pediam anarquia no Reino Unido, bandas como os Buzzcocks ou os Undertones, rendidas à hormona adolescente, versavam sobre masturbação e rapaz-encontra-rapariga-e-vice-versa – tudo coisas que leviana e criminosamente nos habituámos a pôr à margem da música que interessa. Errados estávamos quando o fizemos.
Em 1982 já iam longe as pretensões líricas de um estafado rock sinfónico, amante de mitos e criaturas sobrenaturais capazes de inspirar suites de um lado inteiro de vinil. Mas em 1982 já longe estava também o punk e bandas como os referidos Sex Pistols e Buzzcocks já não existiam.
O mesmo ano viu nascer, depois da euforia punk e durante a explosão do electro, aquela que é considerada por muitos a banda de referência dos anos oitenta britânicos. O primeiro álbum só surge dois anos mais tarde mas, em 1983, futuros clássicos como “Reel Around The Fountain”, “What Difference Does It Make” e “This Charming Man” já haviam sido gravados em sessões emitidas pela BBC Radio. Outro clássico em potência, “Hand In Glove”, é lançado na primavera de 1983, gerando burburinho nos media. Versos como “Hand In Glove / The sun shines out of our behinds / No, it's not like any other love / This one is different - because it's us” geraram, de imediato, diversas interrogações sobre a eventual homossexualidade nunca assumida mas presumível de Steven Patrick Morrissey. Mas mais do que isso, havia nos Smiths música pop com guitarras como já não existia desde a “british invasion”.
Morrissey era, contudo, apenas uma das faces do surpreendente sucesso dos Smiths. A guitarra multifacetada de Johnny Marr, capaz de inflexões inesperadas e do encontro feliz com o riff perfeito (e deliciosamente fugaz), oferecia o suporte musical à literatura que Morrissey bebia em Oscar Wilde. No entanto, Morrissey não constituía exclusivamente o lado “arty” dos Smiths. Residem na figura do vocalista as inspirações “rockabilly” que deram origem a temas como “Handsome Devil”. Isto porque no imaginário de Morrissey, para além de astros e estrelas perdidas do cinema dos anos cinquenta, digladiavam-se hooligans, pistoleiros e foras-da-lei.
Com os Smiths nasceria o rock independente britânico que, anos depois, daria lugar de destaque aos Felt e a uma geração nascida em 1986 que incluía os Wedding Present, Heavenly e os Primal Scream. O primeiro álbum, “The Smiths”, abriria caminho a uma Inglaterra sensível, literata, romântica e num insustentável limbo entre a visibilidade e o “underground”. Morrissey e Marr continuariam a sua parceria por mais alguns anos mas o momento pop dito independente dos anos 80 já se encontrava cristalizado: “Hand In Glove”, que comemora agora a bonita idade de vinte anos, foi a primeira luz de uma geração que Mike Leigh retrata, magistralmente, em “Career Girls”. Uma geração de amores perdidos e achados numa nudez demasiado sincera. Demasiado britânica e demasiado universal.
Luis Guerra
(Mondo Bizarre # 15)
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