É mais um disco numa discografia de vinte e cinco anos. Chama-se “Rather Ripped” e possibilita novo encontro com os Sonic Youth. Desta vez, contudo, é impossível não deixar de pensar que algures nas canções, nas vozes e nos ritmos, se acenam despedidas. E se este for o último disco da banda nova-iorquina?
Se calhar não é. Mas, normalmente, quando um grupo de músicos passa a merecer o elogio de “melhor banda de rock do mundo” sabemos que a sua história está a acabar. E a cada a disco inventamos-lhe um fim, mais ou menos digno. Os Sonic Youth entraram nesse limbo feito de presságios e fantasmas. Vivem com um pé na vida e outro no panteão. Entregaram-nos recordações, experiências, imagens, velhas canções, deles e de outros. São, cada vez mais, um imenso livro de memórias visuais e musicais. É, talvez, por isso, que “Rather Ripped” nos aparece como um álbum de família, onde as fotografias deles se confundem com as nossas.
Os sinais são óbvios. A cada audição visualizamos o passar de etapas, colaborações, nomes, rostos, riffs, melodias, acordes, ritmos e desse gentil vampiro do rock que dá pelo nome de tempo. A ambiguidade ajuda a determinar o que sentimos. Os Sonic Youth são uma banda de rock, mas uma banda de rock profissional. O que sobra são, podemos acreditar, encenações e fingimentos que se dão ao público, ao vivo. Sempre foi assim e, nestas histórias, sempre será.
E “Rather Ripped” dá-nos aquilo que queríamos. Ou paradoxalmente, talvez não. Porque os Sonic Youth nunca tiveram verdadeiras hit songs e, em abono da verdade, o seu culto nunca foi nem muito sólido, nem muito fiel. Houve neles, sempre, uma banalidade estranha, resistente a paixões assolapadas ou a amores longos. Foram, apenas, alguém que todos os dias nos sorri, generosa e sinceramente, e que lembramos com a mesma rapidez com que esquecemos.
Ao longo de uma parte dos anos 90 viveram, como um quinteto, um falso período sabático, entregue a divagações e descobertas progressivas e psicadélicas. Para trás tinham ficado as alucinações de “Bad Moon Rising” e “Sister”, a sensualidade cristalina de “Evol”, a felicidade descontraída de “Daydream Nation” e a alegria dolorosa de “Goo” e “Dirty”. Mas “Rather Ripped” não é um regresso a qualquer destes ou outros momentos. É tão-somente um disco sem anseios, demónios ou dúvidas. Não insinua uma continuação, pois já não há espaço para tal. É uma tela pintada, um grande fresco que não admite improvisos, acrescentos ou emendas. Nada se lhe segue.
Kim Gordon canta como Nico. As guitarras atiram-nos contra o céu e pequenas sinfonias trazem Deus à terra, como disse uma vez Efrim Menuck. Sob o olhar congelado dos Velvet Underground, Patti Smith, Brian Eno, Glenn Branca e dos Television, os Sonic Youth abraçam uma criança doente chamada indie rock, mas não a curam. Escreve-se a palavra Nova Iorque, ouvem-se as vozes dos Pavement, dos Yo La Tengo, dos Flaming Lips. Alguém diz shoegaze, outros dizem punk, pop, rock.
E Thurston Moore pergunta: “What comes first? The music? Or the words?”
É uma pergunta final e retórica. Os Sonic Youth sempre disseram que, nisto do rock, somos nós quem verdadeiramente decide a ordem e o destino das palavras e da música. “Rather Ripped” volta dizê-lo, agora de modo mais explícito. E se este for o último disco dos Sonic Youth?
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 26)