SPARTA
A Raiva Formatada
Cinco meses após a edição do EP "Austere", em que reincidiram na orientação aprazível dos At the Drive-In, os Sparta deslizam para terrenos mais promissores com "Wiretap Scars". O disco serve para infligir feridas conceptuais e romper a cartilagem dos executantes de música elaborada mas de diminuto alcance emotivo.
Março de 2001. Os At the Drive-In, formação responsável por algumas escaramuças nos bastidores da indústria musical, que prontamente viria a ser convertida em fenómeno de culto, anunciavam a suspensão das suas actividades. Dessa dissolução resultaram os esforços criativos dos Mars Volta (que labutam nos arredores de um experimentalismo aplicado a um acidentado fundo de guitarras) e dos Sparta (a extensão natural, menos ríspida também, da sensibilidade melódica dos At the Drive-In, os habitantes mais inconformados de El Paso, no Texas). De uma forma simplista, "Wiretap Scars" é o produto do levantamento de três demos incluídas no EP de estreia e de um maior discernimento lírico e instrumental na composição, que não negligencia um fecundante trabalho de conceitos. Desde 'Cut Your Ribbon' - em que Jim Ward se interroga, imperativo, "how can you sleep at night?" - até 'Assemble the Empire', o álbum é uma averiguação dos receios humanos e uma inscrição nos anais da emoção. O império que convocam é o dos sentidos, cujos destroços, uma vez desmontado, devem ser readquiridos e trabalhados na delimitação da experiência vivida. A poeira resultante da implosão do edifício dos sentimentos é arremessada aos olhos para despertar consciências e colapsar verdades absolutas, como em 'Collapse', um retiro harmonioso que sucede à ofensiva penetrante de 'Mye' - "projects through mansion doors". 'Light Burns Clear' é um estimulante exercício de prosa que se reparte entre a palavra de ordem e a palavra trauteada, declamada. A essência deste primeiro trabalho de longa duração materializa-se em apontamentos espiralados de tensão, raiva e confrontação, substanciados num registo de voz que alterna entre a brandura contagiante e a iminente decomposição em bramidos lancinantes, num trabalho de cordas que consegue desossar o esqueleto turbulento da música.
Contudo, do mesmo modo que qualquer agrupamento de notas ambiciona tornar-se um rebento de luz na pauta da sua linhagem artística, os Sparta parecem desejar romper com a tradição radicular que assenta nos At the Drive-In. Se conseguem distanciar-se do léxico praticado por estes é uma dúvida que subsiste terminada a audição do disco. Jim Ward (voz e guitarra), Paul Hinojos (guitarra), Matt Miller (baixo) e Tony Hajjar (bateria) caminham sobre a lâmina da herança estética, uma travessia árida que os seus dissidentes congéneres, os Mars Volta, não necessitaram encetar em virtude do desvio artístico que sustentaram logo de início. Mesmo assim, o som esboroado e seccionado constante neste "Wiretap Scars" é como uma rebentação cutânea que aflora à tona de temas recortados como 'Sans Cosm' e 'Red Alibi'. E se o EP "Austere" foi a insinuação rebelde de um embrião revolto, neste disco assiste-se à eclosão do feto espartano. Espera-se, agora, a continuidade na evolução num crescendo de audácia e virtuosismo.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 12)
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