STEPHEN MALKMUS & THE JICKS
PÉROLAS E "RODRIGUINHOS"
“Pig Lib”, o novo álbum de Stephen Malkmus, o ex-líder dos Pavement, é um passo à frente ou um passo atrás? Talvez um passo à frente para quem espera o refinamento virtuosístico de uma estética começada há mais de dez anos com os Pavement. Um passo atrás para quem esperou do seu recomeço a solo a frescura trazida em 2001 pela estreia “Stephen Malkmus”. O auditor decide. Envie SMS…
Stephen Malkmus tornou-se durante os anos 90 numa espécie de anti-herói da cena indie norte-americana. Polido e inteligente, com ar de enigmático universitário classe média, convocou uma série de fantasmas da Geração X à frente de um colectivo a meio caminho entre o destrambelhado e o genial. Após quatro sólidos álbuns de originais e um semi-êxito na MTV com “Carrot Rope” não se poderia esperar muito mais dos Pavement e Malkmus rumou ao novo século com as baterias apontadas a uma carreira a solo. Esta daria sinais de vida com o álbum homónimo de 2001 que acendeu uma nova luz sobre o que poderia ser a sua produção musical. Um trabalho luminoso e lúdico, mais pop do que o seria de esperar se contarmos com o seu anterior percurso, onde Malkmus parece convocar boas memórias de uma adolescência perdida. Foi definitivamente uma óptima maneira de regressar ao contacto com os seus antigos admiradores, entretanto também um pouco mais velhos e se calhar já sem grande paciência para as cavalgadas indie-college-lo-fi de outrora.
Entretanto o mundo mudou e o presente tornou-se tenso. Malkmus, farto de estar sozinho reuniu uma banda – os Jicks (nome que advém de uma mistura entre Jagger e Mick) – mudando-se para Portland no norte da costa oeste dos Estados Unidos onde produziu este “Pig Lib”, álbum que funciona de certo modo como um retrocesso aos tempos mais sorumbáticos dos Pavement. “Pig Lib” é um álbum mais denso e complicado que o anterior, onde Malkmus dá rédea solta à guitarra e onde o velho ambiente “slacker” dá lugar a um novo polimento quase virtuosístico. Ele parece agora apostado em demonstrar que é um guitarrista de recursos, investindo ainda mais nas passagens estranhas e nas escalas complicadas, ao mesmo tempo que se apuram os pormenores de produção e se redobram as mudanças de tempo esquisitas. É uma apetência pelo “rodriguinho” que não fica nada bem a quem tem um passado no punk-rock e créditos firmados no rock alternativo. Daí que, não se sabendo se a culpa foi do mau tempo em Portland ou do mau clima pós-11 de Setembro, a verdade é que este novo álbum soa bastante mais rebuscado e maldisposto não sendo de modo geral muito atraente para o ouvido não iniciado acabando por funcionar como uma mastigada versão indie do rock progressivo.
“Pig Lib” está longe de ser um mau álbum, até tem bons momentos, mas sobra-lhe em auto-indulgência o que lhe falta em urgência. É talvez um sintoma de crise de meia-idade a que nem Malkmus parece ter conseguido fugir. Basta comparar com “Slanted & Enchanted”, o primeiro álbum dos Pavement recentemente reeditado, para tirar as dúvidas.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 15)
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