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STEPHEN MALKMUS
MALKMUS C’MON
Com o primeiro e homónimo álbum, Stephen Malkmus deu-nos um disco de Verão, como que uma catarse após dez intensos anos de Pavement. O segundo, “Pig Lib”, começou a desenhar o que se (in)define com “Face the Truth”: um som eclético e surreal, descomprometido e eléctrico, onde diversidade é a única palavra de ordem. Ou seja, um rock cosmopolita, que encontra inspiração onde bem lhe apetece: pop, country, jazz, funk, etc., etc. Um estilo criado na heterogeneidade.

A “Face The Truth” há quem lhe chame um regresso às origens. Não vejo como, simplesmente porque Stephen Malkmus nunca saiu dessas origens nos mais de quinze anos que já leva sua vida musical genial e incatalogável. Apenas as reinventou mais uma vez, como só ele sabe fazer. Senão vejamos.

“Pencil Rot” põe-nos logo em sentido, dando a entender que este é um disco que se tem de agarrar logo pelos cornos. “It Kills” é um primeiro descanso, enrolado naquelas melodias que Malkmus tão bem sabe estender, com um final em que a sua guitarra atormentada surge no seu melhor.Quem me dera um dia morrer assim. “I’ve Hardly Been” reinstala a confusão, alternando entre uma linha contínua de baixo rouco sob uma voz cacofónica, e com um refrão martelado.

Perturbante, mas tão bom... O amor de Malkmus pelo intimismo da música country é notório em “Freeze The Saints”, uma das canções mais felizes a sair da mente imprevisível do autor. Para quem ainda não sabe, este ano Malkmus vai voltar a tocar nos Silver Jews do countryman David Berman, onde participou activamente nos anos 90. “Loud Cloud Crowd” repete a onda agradável, com uma deliciosa linha das teclas de Mike Clark, que se tornam cada vez mais primordiais de disco para disco. É então que começamos a pensar: será que Malkmus amoleceu? “No More Shoes” e os seus 8 minutos de épico entorpecedor são a melhor resposta. É inevitável recordar o magistral “1% Of One” de “Pig Lib”, com Malkmus a dar largas à sua costela de rockeiro solista a la J Mascis, sem a estridência mas com todo o non sense.

As letras continuam hilariantes, confusas e quase imperceptíveis como sempre foram nos Pavement, o que faz todo o sentido face ao ecletismo da música apresentada. “Mama” é um exemplo depurado disso, com Malkmus a cantar um idílico quadro familiar: “Mama’s in the kitchen with onions / Daddy in the back with Old Hank / Talkin’ ‘bout the lasers and bunions, talkin’ disability rank / No, we didn’t have too much money”. “Kindling The Master” tem qualquer coisa de disco, com as teclas mais uma vez a mostrarem o seu potencial, num interessante contraponto à guitarra. “Post Paint Boy” é uma pura balada Pavement da era “Crooked Rain, Crooked Rain”. Simples, como quem sempre fez música com uma perna atrás das costas.

Depois chega o momento grande do disco (mas não é todo ele grande?). Tudo começa no título – “Baby C’Mon” – que é repetido vezes sem conta ao longo da música, misturado com os falsetes a que o cantor já nos habituou, com uma guitarra que grita por todos os lados, e que chega ao êxtase num solo final curto mas inesquecível. Só mesmo Malkmus poderia cantar um refrão tão básico como “baby c’mon” até à exaustão, e fazer disso uma canção tão poderosa em menos de três minutos. Esta é daquelas que ao vivo deve levar à loucura.

Para fechar o disco (Já? Maldição!), nada como uma suave “Malediction”. Mais uma contradição? Nada de extraordinário, já que em “Face The Truth” cada música vai para seu lado, criando uma desarmonia harmoniosa e uma incoerência coerente, que tornam o som tão atraente para uns, e provavelmente inatingível para outros.

Na fatal comparação com os Pavement, é cada vez mais impossível ignorar a verdade: goste-se ou não, Malkmus era a principal alma e razão de ser daquela banda. “Face The Truth” é, na sua essência, a prova viva disso. Comparações à parte, deixem-se ficar os Pavement no seu pedestal dourado do rock e dê-se agora atenção a Stephen Malkmus, que ao terceiro álbum já começa a ter uma obra construída por mérito próprio no presente, e com muito futuro para dar. Uma obra que faz todo o sentido na continuação daquela que criou na banda histórica de que foi líder, mas à qual não se sobrepõe nem substitui. Para quem ainda só vai nos 38 anos de idade, nada mau. E se o ritmo produtivo se mantiver, em 2007 teremos novo disco para elogiar. A ver vamos que novas dissonâncias trará a fronteira dos 40 à música de Malkmus.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 23)