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THE STROKES
SOB CONTROLO
Uma virtude não pode ser negada aos norte-americanos Strokes: a par dos White Stripes, foram a mola propulsora para um – até agora – duradouro reinado de rock em territórios a ele já pouco habituados. “Room On Fire” prolonga agora, exemplarmente, o efeito.

Primeiro o hype, depois o contra-hype. É sempre assim quando um artista começa por ter o reconhecimento da crítica e, pouco depois, contagia as massas. O que começa por ser sinónimo de consenso em torno de uma presumível qualidade intrínseca, é desfeito mal as canções começam a ser entoadas pela massa anónima. A crítica, que funciona como filtro mas também como montra, não gosta de não ser a única a gostar dos discos. Pior: quando se vê acompanhada na adulação, presume sempre alguma falha na engrenagem. Contudo, se formos rigorosos, reparamos que o “backlash” é criado por aqueles que, à partida, já não gostavam do disco ou do artista mas não se pronunciaram num primeiro momento. A visibilidade súbita e massiva de algo que não admiram leva-os a ser-lhes oposição, dando a ilusão de que existe uma mudança de ideias numa mesma cabeça quando, na verdade, são entidades diferentes a emitir opiniões divergentes.

Se esquecermos todo o burburinho habitual de que os media precisam para viver, sobra um disco, “Is This It”, capaz de operar o improvável milagre de, nos dias de hoje, oferecer de bandeja viciantes temas pop com assinalável generosidade. O que fazer perante “Someday”, “Hard To Explain”, “Soma”, “Take It Or Leave It”, “The Modern Age” ou “Last Nite” senão reconhecer nos Strokes um talento nato para a criação de temas rock para cantar de cor e salteado e, ainda por cima, contra todos os enjoos?

Os detractores dos Strokes nunca menosprezaram as influências da banda nova-iorquina. Aliás, começam precisamente por aí a hermenêutica destrutiva. Porque, para muitos, é um sacrilégio que os Strokes tornem pop uma herança da intelectualidade CBGB que conheceu nos Talking Heads, Television ou Patti Smith alguns dos seus pontos proeminentes. Vêem nos Strokes, em simultâneo, um aproveitamento abusivo de um património sério e uma actualização redutora que extrai a substância que encontravam nos primeiros.

“Is This It” pode ser, de facto, isso tudo. E mais: é uma subtracção. Subtrai aos Television, por exemplo, os laivos progressivos, conservando para si a capacidade inequívoca da banda de Tom Verlaine de criar riffs suculentos; subtrai aos Ramones a aspereza e o desvario, conservando para si as intenções melódicas da banda de “Rocket To Russia”; subtrai aos Blondie a plasticidade e o glamour feminino, conservando para si o sémen pop do grupo liderado por Deborah Harry. Por cegueira ou embirração, muitos não vêem nos Strokes, para além da inegável subtracção, um valor acrescentado. Que pode revelar-se de diversas formas mas uma delas é, também, a virtude de sintetizar tendências, mastigar um passado nutritivo e evitar a cópia para apostar numa postura personalizada. É que se os Strokes copiam – e não copiam – então copiam muita coisa ao mesmo tempo.

“Room On Fire” é um duro parto. O vocalista e compositor Julian Casablancas temeu o recuo das expectativas, temeu perder o dom para os refrões concisos, para a insustentável leveza de um single de três minutos. Os Strokes mudaram de produtor: Nigel Godrich possui reconhecidos méritos mas só faria sentido num disco dos Strokes se a banda americana precisasse de um “face-lifting”. Damon Albarn, ébrio mas solícito, chegou a experimentar uns coros beatlescos que, em boa hora, foram postos de parte. Porque nos Strokes mora ainda a urgência dos primeiros tempos e não a sofisticação de uma redescoberta.

“Reptilia”, “Between Love & Hate”, “The End Has No End” ou “The Way It Is” são temas insidiosos que só não são reconhecidos como imediatos e acessíveis numa primeira análise porque nos esquecemos que, provavelmente, precisámos de ouvir os outros – os de “Is This Is It” – mais do que uma vez para os deglutirmos com prazer superior. São temas que pedem para ser apreendidos e, se fossem atletas, sobre eles podia dizer-se que são possuidores de uma inestimável margem de progressão.

O vício perdura. Sem grande dificuldade, “Room On Fire” lança a sua teia e cativa quem está disposto a ser cativado. Mesmo se em “Under Control”, canção enormíssima e o que de mais próximo do conceito “balada” podemos encontrar neste disco, nos digam “I don’t wanna waste your time”. Como se, a medo, nos pedissem desculpa por serem tão bons.

Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 17)