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THE STROKES / THE WHITE STRIPES
GOD BLESS AMERICA... AND THE UK
"Is This It" o álbum de estreia dos Strokes e "White Blood Cells", o terceiro álbum dos White Stripes estão a gerar um rebuliço nos Estados Unidos e no Reino Unido. Porquê? Por celebrarem o regresso do bom, velho e depurado rock'n'roll. Será verdade?

Há alguns meses atrás, um amigo foi a Nova Iorque e voltou de lá com vários discos de bandas quase totalmente desconhecidas das massas. Dois desses discos eram "The White Stripes" e "De Stijl" os trabalhos dos White Stripes que antecedem "White Blood Cells". À época, Detroit continuava na pacatez musical a que se viu remetida desde que deixou de ser a mítica "Hitsville". Não que aí não existissem bandas com propostas musicais válidas. Há anos que Mick Collins fazia música e os Gories acabaram por se tornar um grupo de culto. Os The Go e os Detroit Cobras também produziram álbuns memoráveis, mas só os maníacos do garage, que andam sempre de nariz enterrado em publicações muito pouco mainstream é que repararam.

Um dia comprei, como é hábito, o New Musical Express (NME) e algumas revistas de música britânicas. E qual não é o meu espanto ao descobrir que os White Stripes andavam a ser dados como a "next big thing"? Capas no NME, concertos esgotados e com a presença de celebridades como Kate Moss e Jarvis Cocker, e rumores, muitos rumores sobre o parentesco entre Jack e Meg, o eternamente vestido de vermelho e branco duo de Detroit.

Mas os britânicos tinham, desta vez, encontrado dois novos furores. A par da banda de Jack e Meg White militavam os nova-iorquinos Strokes. O caso dos Strokes é ainda mais inacreditável que o dos White Stripes. Até ao fim do mês passado, a banda não tinha um único álbum editado, mas a capa de "Is This It", parte de um corpo, levemente torcido, da cintura aos joelhos, (se é um ele ou uma ela é outro dos enigmas) e uma mão com uma luva negra que toca, ao de leve, uma das nádegas, causava controvérsia e grandes cadeias de lojas ou não iam encomendar o disco ou não o colocariam em exibição nas montras e demais lugares de destaque, já tinha tido concertos esgotados em Inglaterra, havia pedidos para em vez de tocarem na tenda do Festival de Reading fossem colocados no palco principal, o que acabou por acontecer, uma das suas canções entrara para o top britânico e a imprensa local embandeirava em arco acerca da genialidade da banda. Quando "Is This It" finalmente viu a luz do dia tornara-se um clássico instantâneo da História do Rock.

Do outro lado do Atlântico não era menor o sururu à volta dos Strokes e dos White Stripes. Os primeiros tocaram no El Troubadour, um dos mais conhecidos clubes rock de Los Angeles, e a caça aos bilhetes para o evento foi feroz. Também aqui as celebridades fizeram a sua aparição. Joe Strummer, Keanu Reeves ou Sofia Coppola eram alguns dos presentes. Os segundos surgiam na imprensa graças às confusões relacionadas com a tal estória de serem irmão/irmã ou marido/mulher.

Mas que diabo se passa para dois grupos que no ano passado não fariam nenhum jornalista erguer as sobrancelhas se teram tornado tão "media hype"?

Talvez os escribas que se dedicam a estas coisas do rock, e os que se alimentam de fenómenos massificados, tenham chegado à conclusão de que estavam fartos de bandas onde tudo o que parece contar é ver quem consegue ter um som mais complexo, quantos tipos de parafernália de circo será necessária para o concerto, e nunca, mas nunca esquecer de usar a roupinha de marca que irá ser copiada por milhões de miúdos por esse mundo fora.

Talvez... A verdade é que "Is This It" e "White Blood Cells" são dois bons discos de rock, depurados de artifícios supérfluos, sem serem excessivamente low-fi. Mas estaremos mesmo perante uma nova geração de bandas que se libertaram de todos os maneirismos, clichés e manias do passado?

Sem passado, como é sabido, não há presente. E se os dois grupos são agora vistos como os porta-estandartes de (mais) um ressurgimento do punk, não deixam de ter no seu som algumas referências e pistas que os ligam a bandas e movimentos anteriores. Os White Stripes misturam a base crua dos blues mais viscerais, como Bob Bylan, Rolling Stones, Beatles, com os breaks da Jon Spencer Blues Band e a isso juntam a raiva do punk e uma boa dose de criatividade passível de tornar referências facilmente catalogáveis em novas coordenadas. Os Strokes militam no clube dos grupos que escrevem um álbum como se de vários singles se tratasse. O som de "Is This It" é bastante mais polido que o de "White Blood Cells", sendo as suas canções mais cantaroláveis e fáceis de reter.

O melhor é ignorar o "hype" que rodeia os Strokes e os White Stripes, ouvir os seus excelentes discos, que refira-se não são melhores nem piores do que os de muitas outras bandas que labutam no underground, e esperar que toquem em Portugal enquanto estão em estado de graça. Mas não se esqueçam de uma coisa: bons discos e grandes concertos não é sinónimo de carreira. Lembram--se dos At The Drive-In, a grande sensação do ano passado? Onde estão agora esses rapazes de El Paso que iam resgatar o rock do marasmo em que caíra? Pode ser que juntamente com os Stokes e os White Stripes se tornem em bandas de culto passados uns anos. Ou podem todos acabar esquecidos até que uma nova geração de grupos hardcore e nu-metal (pós nu-metal?) se lembre de repescar velhas canções esquecidas pelo tempo, que serão imediatamente conduzidas aos lugares cimeiros do top.

Pronto, admito, estou a ser cínica. E eu até gosto dos Strokes e dos White Stripes. Até acho que no meio de tanta música ruidosa, complexa, sem nexo, sem referências, eles são uma lufada de ar fresco. Só não sei é por quanto tempo. Mas isso não importa. Ou importa?

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 8)