ST. THOMAS
Cowboys da Noruega
Os St.Thomas não são, como aparentemente poderíamos pensar, um colectivo oriundo das profundezas sulistas da América. São no fundo apenas Thomas Hansen, rapaz norueguês que transcendendo os seus horizontes culturais mais imediatos, concretiza em belas melodias sensibilidades de natureza folk e country.
As lides musicais de Thomas Hansen remontam ao ano de 1998, quando formou o duo Emily Lang com Benjamin Rockseth. O duo tornou-se um quinteto, mas após uma demo e alguns aplausos por parte do público norueguês, acabou por se extinguir devido à mudança de residência de Thomas de Bergen para Kristiansand. Daí, nasce a motivação para iniciar a sua carreira a solo, com sede instalada no seu próprio quarto, local de onde emergiram as várias demos que mais tarde comporiam o ramalhete do seu disco de estreia, “Mysterious Walks”. Devido às frustradas ligações a duas pequenas editoras, o eco da limitada exposição de um sete polegadas “Songs”, e de “Surfer’s Morning” em CD-R, não foi muito alto, mas foi o suficiente para captar a atenção de um funcionário da editora Dbut, que mais tarde formaria a casa editorial dos St. Thomas, a Racing Junior. Foi aí que “Mysterious Walks” viu a luz do dia, bem como o registo que então gravou, “The Cornerman Ep”, o qual veio a permanecer durante seis semanas nas tabelas de vendas norueguesas, o que lhe valeu, juntamente com o concomitante êxito que “I’m Coming Home” também obteria por regiões nórdicas, um contrato com a conceituada City Slang, casa de vultos como os Calexico ou os Lambchop.
“I’m Coming Home” é o segundo álbum dos St. Thomas, onde se fazem ouvir arranjos ora mais esparsos ora mais precisos, mas sempre possuidores de um sentido ritmíco de natureza acústica apurado, a que não são alheios instrumentos tipicamente associados a esse imaginário rural americano, como os banjos e os acordeãos, para além da indispensável omnipresença das guitarras acústicas. O mais surpreendente neste disco é a soberba capacidade de conjugação dessas melodias, soando variadas mas concisas, conseguindo transportar o ouvinte por meandros de introspecção ou pura fragilidade e suscitando nele emoções ao jeito de um Will Oldham, até devido a algumas semelhanças vocais que Hansen tem com este. Algo que se reflecte também nas letras em inglês, que nos falam num registo algo confessional de sentimentos concretos, de solidão e alienação, trazendo à baila cowboys e “moças” como “Emily Lang”, aspectos de teor nada norueguês. Um disco que prova que o poder da imaginação e a sensibilidade individual, muitas vezes extravasam o contexto cultural e social que mais proximamente nos rodeia.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 12)
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