SUN KILL MOON
OS FANTASMAS DOS AMIGOS
Sun Kil Moon é o novo projecto de Mark Kozelek dos Red House Painters, o homem que marcou definitivamente as nossas vidas com filigranas de alto calibre como “Katy Song”, “Mistress” ou “Songs For A Blue Guitar” e que hoje nos revela curiosidades interessantes como a paixão pela obra dos AC/DC e pelo boxe, factos antagónicos à essência da música que sempre nos ofereceu.
Não é possível riscar da memória afectiva uma certa noite em Belém, em que a quietude e o silêncio foram abalados pelo grito clemente vindo da plateia. “Katy Song...” berrou a alma que nessa noite estava destinada a propiciar-nos um momento único. Mark suspirou, tremeu, olhou em redor e contou, numa breve parábola, a origem da canção esquecida, que lenta e atordoada, começou a renascer nos seus dedos e voz. Essa canção, provavelmente escrita no crepúsculo da madrugada após uma noite em branco, serenou a cidade e o rio durante o resto da noite.
Um ano antes, após a gravação de “Old Ramon”, diz-se que a criatividade andou arredada de Kozelek que num hiato de três anos resolveu, entre outras actividades incluindo o cinema, vasculhar e subverter parte do espólio dos AC/DC em envolventes baladas para guitarra e voz bem ao estilo de trovadores como Nick Drake. Esta queda para as metamorfoses, já havia sido testada nas versões de “Shock Me” dos Kiss, “Long Distance Runaround” dos Yes ou “All Mixed Up” dos Cars, com resultados que estimularam os nossos ouvidos para os temas originais.
“Old Ramon”, gravado em 2000 e editado em 2001 via Sub Pop, depois de desavenças com a antiga editora, abriu caminho para o percurso de Kozelek e amigos, mas contrariamente ao que seria esperado, Mark formou em 2003 os Sun Kil Moon. Dos outros Painters, apenas Anthony Koutsos aparece como membro efectivo do projecto, além de Tim Mooney (American Music Club) e Geoff Stanfield (Black Lab). Perante estes factos, o espelho de Mark teima em reflectir os fantasmas dos amigos. A estreia em disco dos Sun Kil Moon poderia ser o sopro de vida fundamental aos Red House Painters e como tal, as expectativas esfumaram-se numa insignificante mas angustiante frustração.
Nostalgia à parte, Kozelek já provou não ser capaz de fazer maus discos em qualquer circunstância da sua carreira, razão pela qual “Ghosts Of The Great Highway” nos oferece uma boa colecção de novas canções inspiradas no inesgotável carisma da escrita e voz de Mark. O ambiente continua centrado numa viagem intemporal pelo interior da América através do telescópio meticulosamente focado na linha do horizonte, que no entanto não recusa um olhar para além do que os olhos alcançam, convocando a mística de Neil Young e dos Crazy Horse e de outros ícones do vasto imaginário americano.
Não sendo suficiente para que os nossos olhos se voltem a encher de lágrimas, o novo projecto de Mark Kozelek revela paixão suficiente para nos penitenciarmos sobre qualquer pensamento menos entusiasta, como uma espécie de pacto sagrado que mantemos em relação ao passado de um genuíno escritor de grandes canções.
Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 17)
| | |