SUPER FURRY ANIMALS
GAROTOS DE NOVAS IPANEMAS
“Love Kraft” não procura revelar os mistérios do seu nome. Explorando os destinos desbravados por “Phantom Power”, coloniza um mundo pop de fenómenos celestiais com a chancela de mestres a que estes galeses nos habituaram.
Imagine-se o ritmo ultra-familiar de “We Will Rock You”. Em seguida, esqueçam-se estádios e pense-se numa favela sul-americana. Depois, não se está na América do Sul, e sim numa qualquer paisagem extraterrestre de vistas surreais. Um colectivo de samba toca desaceleradamente. Prepara-se uma invasão, e a festa é feita à priori. O Terceiro Mundo estabeleceu base num outro mundo. Se o que foi escrito antes parecer normal, então o leitor já sabe bem o que significa a etiqueta Super Furry Animals (SFA).
Doze anos após um conjunto de cinco rapazes de Cardiff terem deixado as bandas de linguagem galesa a que pertenciam, o catálogo dos Super Furry Animals apresenta já sete discos, cada um, à sua maneira, um exemplo de como enxertar a pop com os estímulos mais inesperados, tocando o belo, o íntimo, o festivo, o delirante, e apresentando-se confortável em roupas de fim-de-semana, jantar de gala, ou aventura psicadélica.
Gruff Rhys (Voz, guitarra e teclados), Huw Bunford (Guitarra e voz), Cian Ciaran (Teclas e voz), Guto Pryce (Baixo) e Dafydd Ieuan (Bateria e voz) fizeram “Love Kraft como resultado de uma triagem a cerca de 40 canções, “Love Kraft” passou pela Catalunha, Brasil e Gales, e pelas mãos do produtor Mário Caldato Jr., brasileiro conhecido pelas produções dos Beastie Boys. É o primeiro álbum em que as vozes e escrita são divididas entre todos os membros dos SFA (excepto o baixista Guto). A sua força motriz é a pop, salpicada por psicadelismo, folk, country, americana e easy-listening em vivissecções 100 por cento SFA. Só que isto é enquanto olhamos na cara dos músicos. Olhando para o céu, verificamos que as formações celestiais são outras, estranhas e irrequietas.
“Zoom!” pretende apanhar a bandeira que os Air já carregaram. O surrealismo é uma constante nas letras. “Atomik Lust” examina os efeitos de um banho químico numa balada de fim de tarde, mini-explosão psych-rock alternada com um folk-country alimentado a piano de saloon. “Ohio Heat” é pop do Entroncamento noutra galáxia, com órgãos e palmas. “Walk You Home” é uma “dinner party” no meio de uma névoa em câmara lenta, que acaba em serenata solitária junto à fonte. “Laser Beam” é uma celebração comunal retro-futurista de baixos em distorção e sintetizadores em modo metralhadora, um cartoon de mundo miniatura em ebulição. “Frequency” começa orientalizada para se revelar um caleidoscópio com refrão lindíssimo. “Cloudberries” tem três partes, começando em samba digital e guitarra bossa e acabando num vórtice. “Cabin Fever” acaba com “The future now is wide open and clear”. Há pianos, orquestras e embalo, mas a viagem é de destino incerto.
E sempre foi assim. E enquanto assim for, o sistema com o sol Super Furries no meio, continuará a ganhar planetas cheios de vida, em que cada ser vivo merece uma catalogação especial, com honras de destaque em qualquer Atlas.
Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 24)
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