SUPERGRASS
DE OUTRO PLANETA
Os primeiros sons que ouvimos de "Life On Other Planets", invocam a entrada num circo psicadélico; tudo luz e diversão e "Senhoras e senhores... O maior espectáculo do mundo!". Falando dos Supergrass, esse só pode ser música pop.
Música essa que os Beatles revelaram em primeira mão, a tal a que Kinks e Small Faces deram sotaque britânico - seguidos uma década depois por Jam e Buzzcocks - e que os The Who fundiram com urgência rock'n'roll. Um mágico boião de ingredientes com que a banda de Gaz Coombes, Danny Goofey e Mick Quinn se entretém em diferentes combinações há quase uma década. Nunca atingindo a notoriedade de restantes contemporâneos do britpop de inícios de 90, os Supergrass fizeram carreira como falsos segunda linha - quem edita um álbum como "In It For The Money" nunca pode ser "secundário". Alheios a batalhas pelo estatuto de "melhor banda do mundo", sem visitas a Downing Street, mantiveram o único descomprometimento aceitável no universo pop: Continuaram a fechar-se em estúdios campestres e, entre um copo de vinho e um cigarro devidamente aromatizado, preservaram em fita as pérolas pop que conhecemos e os delírios "fumados" que, sorte ou azar, nunca nos chegaram aos ouvidos. Agora, em 2002, enquanto a maioria da geração britpop desapareceu, procura recuperar a sensibilidade perdida (Liam fê-lo, Noel falhou. Ainda não foi desta Oasis...) ou limita-se a baralhar e devolver as mesmas cartas (olá Suede!), os Supergrass mostram-se, não resistentes de fenómenos passados, mas aquilo que, bem vista as coisas, sempre foram: Artífices inspirados na elaboração de curtas maravilhas pop (que é a forma mais efémera de ser intemporal). Não se estranha por isso que, em "Life On Other Planets", tenham recorrido a Marc Bolan, um dos mestres maiores da arte em questão. Lá o encontramos nos trejeitos vocais de "Seen The Light" e "Brecon Beacons" ou na cintilância de uma "Grace" levada a sério exactamente por não se levar demasiado a sério -- afinal, o que querem dizer com "Save your money for the children". E, já agora, quem mais se lembraria de, numa música cujo refrão reza "What you do is up to you/Take my hand and push on through", utilizar uma pausa para pôr passarinhos a cantar, fazer soar o balido de ovelha e embarcar em solo de sintetizador marado? Pois bem, os mesmos que, em "Prophet 15", recorrem a divagação space-rock à Pink Floyd para falar de um sonho que reúne John Belushi, Marvin Gaye, Steve McQueen, Oscar Wilde e Che Guevara... Provavelmente, esta "trip" e aquela que encerra o álbum, "Run" -- novo momento de deliciosa celestialidade, com o McCartney de "Sun King" na destemida possessão de um mellotron --, são resquícios das tais gravações "fumadas" que, por pudor, os Supergrass não divulgam ao mundo. Não tinham de se preocupar se o fizessem. Sendo quem são, sabíamos estar a salvo de masturbações pretensiosas. Afinal, tanto "Prophet 15" como "Run" fazem toda a viagem prog (solos incluídos) nuns "pop-friendly" quatro minutos, o que, acreditem, é obra. Prova-se assim que contenção terá sido outra das lições aprendidas com os mestres. As restantes, alegremente dispersas por todo o disco, mostram uma banda que cola o "music-hall" dos Kinks à folk alucinada dos Traffic ("Evening of the Day"); que passa, na mesma canção, do punk dos Buzzcocks à invocação sonora de "Strawberry Fields Forever" ("Never Done Nothing Like That Before") ou que enxerta o Lennon a solo no sorriso deliciado de um corpo em dança ("Za"). Ao longo de doze canções explica-se qual a melhor forma de homenagear as influências: Utilizá-las para criar um corpo independente. Essa é uma construção que, da melhor maneira, os Supergrass mostram ter plenamente concretizada.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 13)
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