THE TEARS
REGRESSO AO FUTURO
Os Suede acabaram faz agora dois anos. Em 2005, Brett Anderson, líder de sempre dos londrinos, regressa às lides discográficas novamente acompanhado por Bernard Butler, guitarrista original da banda, que havia abandonado o projecto após o lançamento de “Dog Man Star” em 1994. Agora, e com um belo registo de estreia nas mãos, os The Tears fazem oficialmente a sua apresentação ao mundo.
Cinco discos de originais, uma compilação de raridades, uma colectânea de sucessos. De 1993 a 2005 foi este o percurso discográfico dos britânicos Suede, banda liderada por Brett Anderson, vocalista, letrista e compositor maior de uma das grandes entidades do fenómeno pop que invadiu o Reino Unido durante a década de 90. Bernard Butler, guitarrista de excepção, foi o parceiro ideal de uma dupla que logrou, por diversas vezes, ser comparada à mítica parelha Morrissey/Marr. No entanto, em 1994, após o lançamento de “Dog Man Star”, Bernard Butler decidiu abandonar os Suede no pico da sua prematura fama, criando um vazio impossível de colmatar. Seguiram-se “Coming Up”, ainda hoje um clássico pop absoluto, e os menos inspirados “Head Music” e “A New Morning”, apenas pontualmente tocados pelo encanto que outrora havia dado ao mundo canções como “Trash”, “Metal Mickey” ou “Still Life”.
“É como começar tudo de novo”, declarou recentemente um conformado e ajustado à realidade Anderson à estação radiofónica britânica XFM. Os Suede marcaram uma geração e Brett Anderson, mais do que ninguém, sabe que é de todo impossível recuperar o glorioso período que os autores de “Beautiful Ones” viveram em tempos. Os The Tears não pretendem, de todo, granjear o sucesso que os Suede obtiveram. Surgem da necessidade anunciada por Brett, aquando do término dos Suede, de “recuperar o meu demónio”, algo que o músico havia perdido com a sua banda de sempre. Para tal, voltou a falar com Bernard Butler (não trocavam qualquer palavra há nove anos) e, com isso, nasceu uma nova banda, uma nova química, um novo sopro de vida. Para acompanhar a dupla neste regresso às luzes da ribalta, foram recrutados os ilustres desconhecidos Nathan Fisher, Mako Sakamoto e Will Foster.
Formados no passado ano de 2004, os The Tears apresentam-nos agora o regresso oficial às composições conjuntas de Anderson e Butler, mais de dez anos após o lançamento de “Dog Man Star”. No seu melhor, “Here Comes The Tears” relembra tudo aquilo que os Suede foram no seu pico criativo. Contudo, em alguns momentos fica no ar a ideia que o séc. XXI já não está preparado para receber as canções da dupla. Em que ficamos?
O single “Refugees”, faixa de abertura do disco, deixa claro que “Here Comes The Tears” poderia ser o natural sucessor de “Dog Man Star”. Não o é. É simplesmente o disco de estreia de uma banda nova, recheada de trunfos com provas dadas no passado, mas ainda com muito potencial e carisma para fazer alguns brilharetes no futuro e com muitos potenciais singles em mão. “Lovers” “é fogo que arde sem se ver”, clássico absoluto; “Autograph” arranca com um delicioso riff de Bernard Butler para se transformar numa das mais imediatas e soberbas canções de “Here Comes The Tears”; por seu lado, “Beautiful Pain” e “Fallen Idol” mostram a voz de Brett Anderson melhor que nunca, com refrões super-cola 3, que entram, ocupam o seu lugar, e jamais descolam. Para além disso, há ainda músicas de teor mais épico, como a sofrida, arrastada e assustadoramente bela “Apollo 13”, e o término, com “A Love As Strong As Death”, arrepio cardíaco final, última estação de uma viagem intensa, negra e, não raras vezes, dramática. Como os Suede sempre nos habituaram. Lembram-se de “The Next Life” e de “Still Life”?
“Here Comes The Tears”, longe de ser um disco perfeito, apresenta-nos o melhor trabalho de Brett Anderson e Bernard Butler em longos anos, deixando claro que ainda há espaço para acolher as composições da dupla. Se a nível comercial o disco não tem espantado por ai além (discreta entrada para o 15.º lugar no top britânico), artisticamente falando, “Here Comes The Tears” mostra uma banda madura, fresca e ao mesmo tempo plenamente consciente do seu tempo e espaço na indústria musical dos dias de hoje. Provavelmente, estivéssemos nós em 1995 e “Here Comes The Tears” seria apelidado de mais um golpe de génio da pop inglesa. Em 2005, estamos “simplesmente” na presença de um belo disco, recheado de grandes canções. Tarefa que, convenhamos, não está ao alcance de todos. Porque estas coisas não estão ao alcance de quem quer, mas sim de quem pode. E Brett Anderson e Bernard Butler, ontem como hoje, provam aqui que continuam a possuir o toque de midas.
Pedro Figueiredo
(Mondo Bizarre # 23)
| | |