TEENAGE FANCLUB & JAD FAIR
Irmandade Indie
Chama-se "Words of Wisdom and Hope" e é, desde já um sério candidato às inevitáveis listas dos melhores álbuns do ano. Norman Blake e os seus companheiros assinam mais um notável álbum de luminosas canções pop, desta vez com a colaboração de um veterano do underground americano.
Desde há alguns anos que nos habituámos a olhar para a cidade de Glasgow como um viveiro de músicos criativos que preservam um forte sentido de comunidade além-fronteiras no campo da música independente. Assim, é frequente músicos de bandas conhecidas desta cidade escocesa colaborarem com artistas de outras paragens, contribuindo para uma cena musical rica e excitante, fazendo de Glasgow um dos principais focos de acção da área “indie” europeia: as Sleater Kinney confessam em entrevistas que uma das cidades europeias onde têm mais amigos e onde são melhor recebidas é precisamente Glasgow; a mocita Agi dos Pastels já deu voz a temas de Kid Loco; Dean Wareham dos Luna já gravou com (quem havia de ser!), Pastels; recentemente, Jad Fair, que também tem um disco em parceria com os, - adivinharam -, Pastels, juntou-se aos Teenage Fanclub, uma das formações mais emblemáticas da cidade, lado a lado com os Mogwai, Belle and Sebastian ou (voi lá!), Pastels.
O grupo liderado por Norman Blake já vai com 13 anos de carreira e tem feito um percurso à margem das modas e tendências da indústria musical. Os primeiros tempos, de “A Catholic Education” e do aclamado “Bandwagonesque”, foram marcados por algum sucesso em plena euforia grunge, com os Nirvana e Sonic Youth a servirem de padrinhos através de elogios e digressões conjuntas. Se nessa primeira fase o som do grupo era bastante permeável a influências do outro lado do Atlântico, com constantes piscadelas de olho ao indie-rock das “college radio” americanas, é a partir de “Grand Prix” que se dá a viragem para uma sonoridade mais clássica e tradicionalista, onde a paixão pelos Byrds ou Big Star é mais evidente do que nunca. E se, ao longo destes anos, o power-pop dos Teenage Fanclub não alcançou o sucesso massivo de uns Oasis, tal facto deve-se, em parte, à postura do quarteto, sempre mais preocupado com a música do que em frequentar festas em Londres. O charme “retro” das canções de primeira água aliado à simpatia e “boa onda” destes rapazes, faz com que os apreciadores de power-pop tenham um carinho especial pelo grupo, principalmente em solo britânico.
Pouco mais de um ano após o bem recebido “Howdy”, surge “Words of Wisdom and Hope”, álbum gravado com a colaboração do norte-americano Jad Fair, uma das figuras mais prolíferas do rock independente americano e membro dos Half Japanese.
O resultado é um magnífico disco de canções, numa veia tipicamente guitar-pop. Nota-se uma aposta num som mais áspero que lembra as gravações mais antigas da banda. Na modalidade “tradição-é-que-é”, os Teenage Fanclub são bons especialistas, e se, em certos momentos do disco é bem explícita a aproximação aos Velvet Underground que, aos ouvidos de alguns poderá soar a plágio, o que importa realmente reter nesta reunião de talentos, é a forma como a simplicidade “jingle jangle” das guitarras constrói deliciosas melodias que suportam na perfeição a voz anasalada de Jad Fair, que entre o canto e o registo spoken-word, liberta os seus devaneios linguísticos sobre o amor e a vida de todos os dias, no seu habitual estilo desajeitado e espontâneo. Irresístivel!
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 11)
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