TELEPHONE JIM JESUS
ASTRONAUTA NA TERRA
Telephone Jim Jesus é o projecto a solo de um dos membros dos Restiform Bodies, um trio americano de electrónica ligado à Anticon, que acabou de lançar “A Point Too Far To Astronaut”, um álbum instrumental com beats impregnados de sujidade e vozes distantes onde a estranheza parece brotar da terra.
A origem de Telephone Jim Jesus encontra-se ligada a um trio de música electrónica americano chamado Restiform Bodies (que inclui The Bomarr Monk, Passage e Telephone Jim Jesus), onde começou a experimentar mesclas de batidas de hip-hop com psicadelismo. Neste grupo lançou alguns álbuns e singles de distribuição muito limitada, que permitiram a sua integração no colectivo da Anticon e consequente participação na produção de álbuns de Sole. Agora que acaba de lançar o seu primeiro álbum a solo com uma distribuição bastante mais abrangente, descobre-se uma música com o aroma dos recantos perdidos dos EUA, simultaneamente vasta e introspectiva.
“Restiform Bodies”, lançado em 2001, mostrava um som electrónico artesanal algo psicadélico e vagamente baseado no r&b. Com a chamada da Anticon e uma canção lançada na compilação “1999-2004 Anticon Label Sampler” intitulada “Sippy Cup”, os elementos dos Restiform Bodies começaram a dispersar-se em lançamentos a solo e diversas colaborações dentro do clã Anticon. E enquanto que The Bomarr Monk e Passage lançaram diversos singles em vinil, Telephone Jim Jesus decidiu colaborar na produção do álbum de Sole antes de lançar “A Point Too Far To Astronaut”.
No seu novo álbum é impossível não encontrar pontos de contacto com Alias, outro dos confrades da Anticon. “A Point Too Far To Astronaut” é essencialmente instrumental, com samples de vozes que vão marcando o contraste necessário para tornar as batidas mais fáceis de assimilar, como que dando contexto para os ambientes criados. Difere, contudo, num ponto essencial: Telephone Jim Jesus gosta bastante de electrónica artesanal e de introduzir elementos perversos na sua música.
É assim que subitamente na canção “Bathroom Mirror” surgem samples de filmes pornográficos ou então que em “A Blindness Falls” se ouve alguém a dizer que é melhor ter uma arma que ser homossexual. Como não se trata de um álbum completamente instrumental, uma semi-demente declamação de Passage na canção “Convertible Stingray” surge quase no final do álbum, mas duma forma etérea que acentua o lado atmosférico do disco. Menos ligado ao activismo político, Telephone Jim Jesus vira-se para as suas próprias manias, e é então que pontos de contacto com o “Kid A” dos Radiohead podem ser encontrados. No final fica ainda a clara sensação que este é um trabalho quase rural, impregnado levemente pelo perfume da folk.
A estranheza deste disco parece advir de estarmos em territórios não explorados, e chegamos ao fim a pensar que tudo isto tem bem mais a ver com songwriters como Tom Waits do que com o hip-hop que estamos mais habituados a ouvir.
César A Laia
(Mondo Bizarre # 21)
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