THE KILLS
LIBIDO NON-STOP
Chamam-se The Kills e são um duo. Ela, VV, americana, ele, Hotel, inglês. Descobriram-se numa cave e puseram a libido ao serviço de riffs blues, sujidade velvetiana e hipnotismo Royal Trux. O arfar, esse é todo deles. Depois do EP de estreia, “Black Rooster”, a Mondo Bizarre apresenta o primeira longa duração, “Keep On Your Mean Side”.
“Mais um duo? Mas isto não acaba?”, começarão por dizer alguns. Antes que se prepare qualquer argumentação, os mesmos, que gostam de estar informados, explodirão com desdém: “E é um gajo e uma gaja! Os White Stripes estão mesmo a dar, não é?”. E sim, os White Stripes estão a “dar” porque, felizmente para todos nós, são uma grande banda. Também felizmente para quem escreve estas linhas, o são os The Kills. Mas de uma forma cujas semelhanças com a banda de “White Blood Cells” começam na formação rapaz/rapariga e acabam na ascendência blues da música de ambos. Enquanto os Stripes servem para Jack White se assumir como o primeiro blues-man branco do novo século (um grande contador de histórias, como todos da linhagem) – com Meg, em segundo plano, a servir a simplicidade glamorosa que lhes completa a personalidade -, VV e Hotel, os Kills, são um ying e yang indistinto, e pouco dado a espiritualidade. Não sabemos onde começa um e acaba o outro, sabemos que são inseparáveis e que só existem como resultado de uma combustão química despoletada algures numa cave pouco iluminada. Neste contexto, apontar o facto de serem um duo em tempos neles pródigos, soa a conversa de A&R de multinacional sedento de lucro e alheado do mundo (“Pois pá, o melhor mesmo era abandonarem o baixista e o teclista. Andei a ler umas revistas inglesas e acho que era porreiro tocarem só os dois. Já agora, tomem lá este disco do John Lee Hooker para tirarem umas ideias”). Como muito bem escrevia aqui há uns tempos Gonçalo Frota, no Blitz – em crítica a “Naked Blues”, de Legendary Tiger Man -, “ninguém ouve um disco a pensar quantas pessoas nele tocaram”. Se os White Stripes, os Immortal Lee County Killers, as Mr. Airplane Man, os Swearing at Motorists e os Raveonettes são formados por duas pessoas, o que havemos de fazer? Apontar que os Rolling Stones, os Yardbirds e os Buffalo Springfield eram cinco? Que os Beatles, os Led Zeppelin e os Sex Pistols eram quatro? “I rest my case”. No fim de tudo, o que fica e o que realmente interessa é a música. Passemos a ela. A dos Kills nasceu quando Alison Mosshart e Jamie Hince se encontraram para formar uma banda “normal”. Numa cave londrina disfarçada de estúdio, um par de ensaios bastaram como prova que o futuro não seria o previsto. Ouça-se “Kissy Kissy”, uma das canções de “Keep On Your Mean Side” - álbum de estreia que sucede ao EP “Black Rooster”. Levemente etérea, misteriosa sob a forma de guitarra slide, é um blues hipnótico onde o sexo se dissimula de violência. Imaginamo-los, olhos nos olhos, adiando o desejo (“It’s been long time coming”, cantam) em declarações que passam de “burn your kissin’ mouth” para o definitivo “stab your kissin’ mouth”. Naquele momento, são o Mickey e Mallory de “Natural Born Killers” em êxtase “Je T’aime, Moi Non Plus”, de Gainsbourg e Birkin. Quando, em “Black Rooster”, gritam um para o outro, todo ele Lou Reed, toda ela PJ Harvey, “You wanna fuck and fight/In the basement”, torna-se óbvio porque não partilham a banda com mais ninguém. Estar, naquele momento, no mesmo estúdio que VV e Hotel, era assumir o desconfortável papel de “voyeur” da libido alheia. Falamos de música feita, basicamente, de sexo, de perigo e de intensidade. Não sabemos o que se passa na tal cave, mas estas são canções que se ouvem como se de um “retardador de prazer” se tratassem. Exercícios catárticos para troca de “flirts” ambíguos até ao grito “Fuck The People”, em que se correm as cortinas e se atiram para um canto guitarras e microfones. Não espanta que tenham fama de não ligar ao público. Alimentam-se um do outro e, se têm algo para nos oferecer, é o resultado dessa intimidade. Ligar à audiência, nestas circunstâncias, seria quebrar o feitiço. Em nós, que, ao contrário do hipotético músico convidado, somos “voyeurs” descomplexados pela distância, o “voodoo” faz-se sentir bem no centro do bulício citadino – ritual que, pelo manto de minimalismo, traz à memória outro duo famoso, os Royal Trux. VV diz sem pudor que detesta o campo e isso nota-se. “Keep On Your Mean Side” descende de uma série de mitos da música popular urbana, do blues vindo dos campos de algodão para se instalar na cidade até às sujas ruas de Nova Iorque calcorreados pelos Velvet Underground ou por Patti Smith; da Bristol de PJ Harvey à Londres que sonhava com Robert Johnson, a dos Rolling Stones. Não há espaços para limpidez. Mesmo quando simulam bucolismo folk, não conseguem evitar a penetração de sujidade exterior. Em “Wait”, enquanto VV evoca rudemente a voz cristalina de Tanya Donnelly, tal ruído faz-se sentir nos longínquos feedbacks, presentes o suficiente para nos impedir de pensar em céu azul e na sombra de uma árvore. Quando muito, imagina-se um quarto pouco iluminado, um gira-discos, cigarros no cinzeiro e uma televisão sempre ligada. Falamos de música em flashes, descargas entorpecentes de electricidade, uma viagem interminável no “looping” de uma montanha russa. Podem seguir viagem em “Fried My Little Brains”, um riff excitante e vício instantâneo, preferir a electrocução continuada de “Pull a U” (“I’m your black magic/A two dollar luck”) ou o rock’n’roll para gritar refrão de “Cat Claw” - um delicioso híbrido de Breeders e Jon Spencer. Qualquer que seja o bilhete escolhido, fica uma certeza. Os The Kills são, acima de tudo, a negação do romantismo. São perigo, não conforto. Têm néons em vez de velas, caves taciturnas em vez de bancos no parque, têm instinto em vez de kama-sutra. Fodem em vez de fazer amor. Estranhamente (ou não) sabe muito bem.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 14)
| | |