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TOMMY BOY
20 ANOS A FAZER HISTÓRIA
Tommy Boy, uma das mais conceituadas editoras de Nova Iorque, celebra 20 anos de existência com uma série de reedições e compilações do seu passado musical onde predomina a sua especialidade: o hip-hop. Criada em 1981 pelo seu actual presidente Tom Silverman, a Tommy Boy trouxe ao mundo artistas sempre na crista de ondas diferentes como Afrika Bambaataa ou Stetsasonic entre muitos outros. Este ano, a editora lançou uma série de reedições e compilações dos seus mais célebres artistas, a maioria dos quais, já se tornaram ícones de culto do hip-hop.

Em princípios da década de 80 esta editora estava de ouvidos postos na revolução musical que irrompia nos bairros de Nova Iorque. A era pós-disco acabara e no seio da comunidade musical negra, o funk, o soul, o reggae e o blues estavam em fase de mutação com os emergentes géneros de hip-hop e de R&B. Alguns destes artistas, diante da nova tecnologia dos sintetizadores e das mesas de mistura, captariam também a influência electrónica vinda do Velho Continente.

Entre os vários artistas que a Tommy Boy lançou no mercado ainda obscuro dos anos 80, destacam-se os Afrika Bambaataa e os Stetsasonic. Por um lado, falar de música de dança, electrónica ou de hip-hop hoje significa traçar um passado até ao "Planet Rock" de Bambaataa, disco quente do Verão de 1982, por outro, falar de rap como o mundo viria a conhecer o hip-hop em finais da década de 80 e princípios de 90 passa obrigatoriamente pelos Stetsasonic. Senhores de um som ecléctico e secular, disputam, ainda hoje, um lugar nas origens do hip-hop moderno.

Na viragem da década de 80 para 90, o reconhecimento mundial do rap/hip-hop associava este novo género a uma filosofia generalizada de violência, militância ou egocentrismo, proferida através de artistas como os NWA, os Public Enemy e os LL Cool J, respectivamente. Neste clima virtual de guetos, extremismos e limusines, surgirão bandas mais refrescantes como os De La Soul, os Digital Underground e os Naughty By Nature. Tanto nas correntes mais pacifistas como na exploração musical, estes grupos apresentaram-se como alternativas a outros modelos dominantes do hip-hop da época.

Para comemorar os seus 20 anos, a Tommy Boy lançou, neste ano de 2001, as seguintes reedições e compilações: "Looking For The Perfect Beat" de Afrika Bambaataa, "Let me love you - The Greatest Hits" dos Force MD´s, "In Full Gear" e "On Fire" dos Stetsasonic, "Three Feet High & Rising" dos De La Soul e "No Nose Job -The Legend" dos Digital Underground. As escolhas deste artigo recaem sobre duas reedições: a dos De La Soul e Stetsasonic, e duas compilações: as de Afrika Bambaataa e dos Digital Underground.

A compilação de Afrika Bambaataa denominada "Looking for the Perfect Beat" é uma verdadeira peça histórica de toda uma cultura. Ouvir o tema "Planet Rock" é descobrir as raízes do techno, do house e de outras correntes electrónicas de dança. Conhecido como o padrinho do hip-hop, é com Afrika Bambaataa que este género explode em cena, a qual este apelidou de "Electro-Funk". Acompanhado por um grupo de breakdancers ou B-Boys, não é de admirar que a corrente musical popularizada por Bambaataa tenha ficado conhecida por cá e também noutros países como simplesmente "breakdance". Aliás, o tema "Breakers Revenge" tem sido desde o seu lançamento o hino mais respeitado desta forma de dança, reaparecendo em quase todas as B-Boy battles realizadas pelo mundo fora.

"In Full Gear" entrou em cena no ano de 1988, e só não recebeu o mérito devido porque outras bandas de peso como Public Enemy, LL Cool J e Run DMC estavam a ditar as "regras" do rap e os Stetsasonic fugiam um bocado ao programa. "In Full Gear" foi uma abordagem extremamente ecléctica do rap, muito ao estilo das escolhas da Tommy Boy. O bass, o freestyle, o soul, o funk e o R&B são cuidadosamente seleccionados como estrutura dominante de cada tema revelando na altura algo que o público só mais tarde iria descobrir: que o hip-hop podia progredir mantendo as suas raízes num plano universal e musical.

"Three Feet High & Rising" foi o álbum de estreia dos De La Soul. Uma banda com um ambiente um tanto ou quanto mais calmo, festivo e muito "groovy". Tendo em conta o visual que apresentavam naquele tempo, foram quase desde logo considerados hippies do rap. "Me, Myself and I" é sem dúvida o tema mais histórico deste disco, em que os clichés do rap da altura são expostos ao ridículo, algo que os De La Soul farão repetidas vezes e melhor do que ninguém. A produção de Prince Paul (ex-membro dos Stetsasonic) fez com que este álbum preservasse a essência do funk que o hip-hop dos anos 80 promulgava, e ainda adicionou, por um lado, uma pitada de rock e pop como toque final conquistando o mainstream e, por outro, ganhou o respeito da comunidade rap pelo seu som complexo e inovador.

Por último, "No Nose Job - Legend of Digital Underground" é um "Best Of" dos cómicos Digital Underground, banda daquele personagem narigudo de voz anasalada. Revela uma amálgama de som ao estilo Tommy Boy, mais ligeiro e no entanto bem trabalhado, contrastando com o ambiente por vezes estéril de outros grupos de hip-hop da época. Estes senhores orgulhavam-se de manter tanto o "Old" como o "New School". No seu trabalho irradiado pelo soul, o R&B e o funk, as correntes de música negra não eram excluídas na atitude purista tão típica de muitas bandas. Grandes seguidores do funk psicadélico, tem como plataforma sonora muitos samples dos excêntricos Parliament.

Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 9)