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TOM WAITS
DO FUNDO DO CORAÇÃO
Enganem-se os que pensam que Tom Waits, o músico/actor/poeta/homem do mundo, está em baixo de forma, ou simplesmente reparecido após quatro anos de suposta inactividade. Nada mais falso. Aquele que já foi considerado um dos mais ecléticos, enigmáticos e influentes músicos de todos os tempos, até tem estado muito activo. Desde que saiu da Island Records e ingressou na editora punk rock independente Epitaph, Waits editou o aclamado "Mule Variations" e tem colaborado em inúmeras bandas sonoras. Agora, em 2002, ano que tem mais um motivo (ou dois) para ficar na história, Tom Waits agracia-nos com duas prendas de uma só vez: "Alice" e "Blood Money".

Antes de ler qualquer coisa sobre os novos discos do Tom Waits decidi ouvir, sem enquadramento, o que o senhor tinha para dizer após quatro anos sem edições. Não é para menos. É um músico que admiro desde a adolescência. Cresci a ouvir em casa dos meus pais discos como "One From the Heart", "Swordfish Trombones" e "Frank's Wild Years". É um dos concertos que mais desejo desde que me lembro de ir a concertos. É uma daquelas vozes que após as primeiras sílabas já me arrebatou por completo. E agora dois discos novos de uma só vez. Não é para menos...

Passei então um fim-de-semana a ouvir (contemplar será o termo mais correcto) "Alice" e "Blood Money", alternadamente, consecutivamente... E apercebi-me que, de facto, por muito que se fale e escreva sobre Tom Waits, e aqueles que não dispensam o músico estarão com certeza de acordo comigo, tudo o que é necessário é dar ouvidos à música, às letras e aos ambientes criados. Não faz sentido dizer que longe vão os tempos de "Rain Dogs", porque a obra de Tom Waits não tem altos e baixos. Gosta-se ou não se gosta. E quando se gosta, é do fundo do coração, como acontece com as mais recentes edições discográficas de Tom Waits. Mas se "Alice" e "Blood Money" são de facto dois discos à parte fisicamente, no mais íntimo é difícil separá-los, porque o teor é similar. Aém de serem ambos bases musicais para projectos teatrais e operáticos de Robert Wilson.

"Alice", já considerado pela imprensa como a obra perdida de Waits, vê finalmente a luz do dia desde que subiu pela primeira vez ao palco em 1992, incorporada na ópera avant-garde de Wilson do mesmo nome e inspirada no clássico de Lewis Carroll. Como diz o próprio Waits em relação ao disco no seu todo, e particularmente em relação a temas tão díspares como "Alice" e "Kommienezuspadt" - ideia que creio se aplicar a toda a sua música - o que ele faz é música de adultos para crianças, mas também música de crianças para adultos. Acrescento eu: é música moderna que soa a tradicional, mas também é música tradicional que soa a moderna. "Flower's Grave" ou "No One Knows I'm Gone" são daquelas canções que dois segundos depois já queremos ter na ponta da língua. Com a vantagem que a voz de Waits permite todos os acompanhamentos. Até os menos afinados. Talvez seja por isto que esta música soa tão nostálgica. Ouça-se por exemplo "Table Tap Joe", onde Waits chega tão perto de Louis Armstrong. Ou "Fawn", um sonho, o mais profundo de todos.

Quanto a "Blood Money", é a terceira colaboração de sucesso com Robert Wilson - antes de "Alice" tinha existido "Black Rider". O nome original da produção de Wilson é "Woyzeck", uma fábula obscura alemã do Séc. XIX, sobre um soldado que assassina a sua namorada, e que subiu aos palcos pela primeira vez em 2000 Talvez seja pelo ambiente pesado da peça que Waits apresente este seu registo musical numa toada mais carnal que "Alice", se bem que não esteja muito distante nos sentimentos que provoca. É mais um daqueles discos de Waits que são estranhos, mas que se entranham. Vai de melodias extremamente sentidas ("Coney Island Baby") até melodias intensamente sofridas ("Lullaby"), sem quase se sentir a diferença. "Blood Money" trata das misérias da humanidade. Basta dar atenção a "Misery in the River of the World", porque "If there's one thing you can say about mankind/There's nothing kind about man". Ou ouvir a lição de "A Good Man Is Hard To Find": "I always play Russian Roulette in my head/It's seventeen black and twenty-nine red/How far from the gutter; how far from the pew/I'll alwyas remember to forget you". Ou ainda compreender que "I don't believe you go to heaven when you're good/Everything goes to hell, anyway…" ("Everything Goes to Hell"). E já que estamos a falar de misérias da humanidade, até existe em "Blood Money" uma referência ao fado e às tabernas portuguesas em "The Part You Throw Away".

Se é irrefutável que há uma linha condutora com o passado, naturalmente com maiores referências ao material mais recente, de facto "Alice" e "Blood Money" aprofundam alguns elementos na obra de Waits. Nomeadamente a abordagem mais "suja" às cordas, em particular ao violino muito menos polido que outrora; as percussões que cada vez mais parecem marchas para uma morte certa; os sopros que nos levam ao mais extraordinário dos freakshows. Nestes termos porque a música de Tom Waits é dificilmente classificável. Incorpora folk, blues, country, jazz, polka, valsa, música de cabaret, swing, baladas populares. Incorpora influências pessoais como Rolling Stones, Leonard Cohen, Bob Dylan, Bill Hicks, Sam Phillips, James Brown, Frank Zappa, Captain Beefheart, Ray Charles, Houndog, Pogues, Harry Partch, Leadbelly, Wingless Angels, Gavin Bryars, Lounge Lizards, Thelonious Monk e até Tex-Czech Bohemian Moravian Bands. Tudo isto numa categoria que só pode ser classificada como Waitsiana. São já três décadas de convivência com uma abordagem à música muito própria, plena de aventuras pelas andanças do country-blues, do lounge jazz, do rock mais primário e da música para teatro, cinema e ópera. Em suma, Tom Waits é e continuará a ser o espantalho que canta para os corvos. Com o senão de que os corvos não se espantam e nunca se vão embora.

Infelizmente, para "Alice" e "Blood Money" não estão previstas tournés. A saúde de Waits já está longe dos tempos de setentas e oitentas. Pelo que vamos ter de passar os próximos tempos à espera que surjam mais pérolas para idolatrar. Estas, por enquanto, vão dar para uns tempos largos.

Uma nota final: não posso deixar de referir que ambos os discos foram inteiramente escritos e produzidos por Waits e pela sua mulher, Kathleen Brennan, companheira de mais de 20 anos e mãe de três filhos comuns. E se aqui se aplica na perfeição o provérbio "por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher", é cada vez mais injusto que Kathleen Brennan, não apareça mencionada na capa ao lado do marido. Apesar de Waits confessar abertamente a dívida e amor que tem para com Kathleen, a sua Alice.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 11)