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TRICKY
Sorte Com as Mulheres
O “puto manhoso” de Bristol esteve quase para não cantar no seu novo álbum, “Vulnerable”. Tudo porque arranjou uma nova parceira que faz o serviço de tal modo, que ele esteve vai-não-vai para deixá-la ser a única voz presente na gravação. Entretanto arrependeu-se, mas o resultado é um álbum menos paranóico que vive da dualidade entre o rosnar do velho Tricky e a sensualidade da sua nova parceira.

Tricky. Tricky Kid, para os amigos, está de volta. Ainda parece que foi ontem que lançou “Blowback” e aí está ele com novo álbum. Após a ascensão ao pódio dos vencedores da geração trip-hop – estilo que fez questão de rejeitar desde o primeiro momento – e da posterior queda em desgraça; da passagem para o mundo das independentes com a associação à Epitaph e da mudança para Nova Iorque; da paradoxal suposta investida no mundo “mainstream” no último álbum onde era acompanhado por Alanis Morrissete, Ed Kowalczyk, dos Live, ou os Red Hot Chili Peppers, o “puto de Bristol” regressa em regime de perfil mais discreto. Decidido a não abrandar o ritmo (foi em tempos crítico das produções vagarosas dos Massive Attack, com quem colaborou) vai chutando a bola para a frente e trás agora um álbum “vulnerável”, que é de certa maneira a sua maneira de dizer que queria uma produção menos espalhafatosa e um tipo de canções mais intimista.

Em termos gerais “Vulnerable” não é uma gravação que traga grandes evoluções à sua música. Há as habituais batidas quebradas e vagamente disfuncionais que associamos à sua versão do hip-hop; há as palavras ora sussurradas ora rosnadas que são sua imagem de marca, há toda uma tensão “muito pré-milénio” que às vezes se limita a ser uma ambiência criada por “samples” soturnos, noutras é uma explosão de guitarras densas e à beira do sufoco. Há a inevitável homenagem aos anos oitenta com um versão de “The Love Cats”, dos The Cure, e um baixo que evoca os Joy Division em “Wait For God”. Basicamente nada que não se tenha já percebido nos seus álbuns anteriores. Há também o truque da dualidade voz masculina sussurrada ou “rapada” em tom sinistro/ voz feminina em registo de uma sensualidade soul. Aliás “Vulnerable” usa e abusa deste ingrediente, o que é em simultâneo o seu ponto fraco mas também o seu melhor traço. Se é um ponto em desfavor do álbum porque o torna um tanto ou quanto previsível, em contrapartida, a voz de Constanza Francavilla, a nova parceira efectiva de Tricky, é em definitivo, um dos melhores argumentos para se ouvir este disco, remetendo de certo modo para a tensão entre pólos opostos dos trabalhos iniciais de Tricky – “Maxinquaye” e “Pre-Millennium Tension”. Lembram-se de Martina, a fabulosa presença que cantava “Christiansands” ou “Makes Me Wanna Die”? Pois, parece que o “anjo de cara suja” arranjou um novo alter-ego feminino à altura das suas primeiras ideias musicais -é caso para dizer que o rapaz tem sorte com as mulheres. E ao contrário de “Blowback”, que era uma espécie de festival de colaborações e ambiências, decidiu explorar a fundo o papel que esta descoberta pode trazer à sua arte. Tanto que, numa versão inicial deste álbum, apagou completamente a sua própria voz!!! A verdade é que em canções como “Stay”, “Car Crash”, “Dear God” ou “Hollow” é notório o valor acrescentado que esta presença trás a uma música soturna e tendencialmente neurótica. A doçura meio infantil meio sensual desta antiga fã italiana, que se insinuou junto do ídolo, é o raio de luz que trespassa o buraco negro erigido pela música de Tricky, que acrescenta o toque de graciosidade, que contrasta mas, ao mesmo tempo, completa a paranóia existencial da sua criação. “Vulnerable” necessita dessa presença como de uma seiva vital que faz mexer um corpo cansado e moído, e daí que este seja também um álbum mais doce que os anteriores. E é também por isso que este não é só mais um álbum na sua já larga lista de edições. Não será provavelmente um êxito comercial nem o atirará para as bocas do mundo como no início de carreira, mas é um disco com a capacidade de o reconciliar com velhos amigos que desconfiaram dos seus últimos passos musicais. E de lhe assegurar a continuidade de uma carreira que demarcou desde os primeiros tempos com forte singularidade. Esperemos que a vontade de o ouvir ainda se mantenha…

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 15)