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TV ON THE RADIO
ESTRANHA FORMA DE ROCK
Depois de um muito aclamado EP, “Young Liars”, o primeiro álbum dos TV On The Radio era esperado com grande expectativa. A qual se confirma num disco único no panorama rock dos nossos dias, tão estranho quanto agradável, tão futurista como passadista, tão negro como branco, tão TV como rádio.

Os TV On The Radio nasceram numa microcomunidade artística de Brooklyn residente num “loft”. Ainda há dois anos, antes do “estrelato”, era possível ver os membros fundadores, Adebimpe e Sitek, a vender quadros nas ruas de Nova York, a compor estranhos arranjos a partir de instrumentos criados em casa, ou a tocar em clubes pequenos e desconhecidos. Hoje abrem para os The Fall, fazem vídeos para os Yeah Yeah Yeahs, produzem álbuns dos Liars e têm críticas na Playboy.

Mas quem são os TV On The Radio? Uma banda interracial afro-americana ou uma banda rock negra? Somente uma banda rock que contém músicos negros. Tunde Adebimpe, pintor, cartoonista e realizador, fã de música antiga americana e jamaicana, é, sem rodeios, um dos melhores vocalistas da actualidade.

Uma voz melódico-gutural, que já foi comparada a Peter Gabriel, se bem que me escapem as semelhanças. David Sitek, o homem do leme e dos sete instrumentos, introduz beats, loops, texturas e guitarras. Kip Malone na guitarra, segunda voz e mais loops, é o novo membro, integrado pós – “Young Liars”, e a única grande diferença do EP para o LP: abriu a banda às infinitas possibilidades de dois vocalistas com capacidades tão diferentes, mas similarmente geniais – “Ambulance”, “Poppy” ou “Bomb Yourself” são excelentes demonstrações da mágica combinação entre Adebimpe e Malone, o primeiro mais por baixo e o segundo mais por cima.

Apoiados por letras excepcionais, repletas de metáforas: “I’ll be your accident if you’ll be my ambulance / I’ll be your one more time if you’ll be my one last chance”.Que som produzem os TV On The Radio? Um conjunto de harmonias vocais armadilhadas por sinistros beats e loops electrónicos. Funk, gospel, soul, rock e a capella, assentes numa repetitividade mecânica, onde as guitarras são quase tão estáticas como os beats. Um espírito lo-fi, que continua a recorrer simbolicamente às origens de um projecto que começou com gravações caseiras em gravadores de 4 pistas (lembram-se do mítico Fostex?).

Se bem que a origem nua e crua dos sons venha neste álbum revestida de uma produção de grande qualidade. O todo é de uma beleza asfixiante, que nos deixa voar sem nunca levantar realmente voo. Um trabalho em constante evolução, sem clímaxes. Só com texturas que começam, e acabam, e continuam. Talvez seja por isso que o som dos TV On The Radio pareça uma luta constante entre tensões que nunca explodem, mas que não nos largam por um segundo.

E é também por isso que não é possível determinar para onde a banda irá a seguir, se bem que a acreditar nas palavras de Adebimpe, o objectivo é torná-la num veículo cada vez mais estranho. Até à próxima viagem os incondicionais podem começar a procurar na net um conjunto de temas dos primórdios, de seu nome “OK Calculator”. Descubram as diferenças para hoje e imaginem o que o futuro dos TV On The Radio ainda promete.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 20)