UP, BUSTLE AND OUT
POSTAIS CUBANOS
Ao que consta, Cuba está a servir de fonte de inspiração a um número considerável de músicos e grupos. É como se, de repente, o país de Fidel Castro representasse o tubo de escape criativo para a música actual (sobretudo a de dança). Será apenas um fenómeno de moda passageiro?
Após o estrondoso êxito do disco “Buena Vista Social Club” (banda sonora do filme de Wim Wenders, com Ibrahim Ferrer e Compay Segundo), do disco “Moors and Christians” de James Hardway, depois do álbum de Señor Coconut y Su Conjunto (pseudónimo de Atom Heart), eis que chega a vez do colectivo Up, Bustle and Out enveredar pela exploração cubana para a obtenção de inspiração musical.
Os Up, Bustle and Out são um grupo oriundo de Bristol (já se sabe – terra de gente famosa: Tricky, Massive Attack, Roni Size...), formado em 1993 e que editou, até ao momento 12 discos (entre álbuns, EPs e singles). E sempre pela proeminente editora Ninja Tune, casa editorial que também alberga nomes fulcrais da electrónica dos anos 90 como Coldcut, Nightmares on Wax, Herbalizer ou Fila Brazillia. Da amálgama de projectos de música de dança que despontaram no início da década de 90, na Inglaterra, este grupo de Bristol foi um dos que mais se destacou. Sobretudo pela singularidade em termos sonoros: apesar da base musical ser sustentada por uma forte componente electrónica (hip-hop, breakbeat), os Up, Bustle and Out destacaram-se pela forma original como combinaram elementos étnicos (a chamada “world fusion”), procurando fontes sonoras desde a Bolívia a Istambul, da Andaluzia ao Norte de África. Se a isto juntarmos pitadas de funk, soul, jazz e ambient, teremos uma imagem aproximada do que musicalmente é capaz este projecto.
Após a edição dos seus três primeiros álbuns (muito aclamados, nomeadamente “One Colour Just Reflects Another”, datado de 1996), os Up, Bustle and Out perderam alguma da orientação criativa com a edição de singles e EPs menores. Mould, um dos mentores deste projecto de Bristol, tem um especial fascínio pela cultura da América Latina e por líderes revolucionários (o inevitável Che Guevara...). Com o último disco “Master Sessions 1”, recentemente posto à venda, os Up, Bustle and Out viram-se para as sonoridades quentes e ritmadas da salsa cubana, conjugada com beats hip-hop e laivos de jazz latino. Aquilo que poderia ser um trabalho surpreendente ou, no mínimo, interessante, dadas as curiosas misturas de referências, acaba por redundar numa desilusão, na medida em que a previsibilidade das fórmulas musicais de fusão utilizadas decepciona até o ouvinte menos exigente. A ousadia pela indagação de novas formas, que notabilizou o grupo no início de carreira, parece agora diluída em conformismo de ideias.
Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 4)
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