URSULA RUCKER
YOUNG GIFTED AND BLACK
Ursula Rucker tem em "Supa Sista" o seu álbum de estreia, um trabalho que foca os problemas sociais que perturbam a América e não só. Por cima de uma mistura de soul, hip-hop, spoken-word e jazz, Ursula usa a palavra como arma. Em Dezembro, Lisboa poderá confirmar a excelência da norte-americana.
A criatividade brota naturalmente dos cidadãos de Philadelphia. Muitos interrogam-se se o ar ou água da sua querida Philly tem alguma característica especial, outros fazem questão de provar que sim. Ursula nasceu em Philadelphia. Eis mais uma prova. Tudo começou por um acaso do destino, em 1994, quando os Silent Poets estavam no último dia de estúdio para a gravação do álbum estreia. O poeta Ntozake Shange, que estava previsto ser a voz final, não estava disponível e Ursula respondeu afirmativamente ao convite de "Do You Want More?" Desde aí, até hoje, a sua presença disseminou-se como uma vacina que muitos teimam em repetir - uma presença constante que deambula entre o hip-hop, o jazz, a soul e a spoken word.
Estabelecendo fortes laços com a comunidade musical e poética Ursula tem nos Silent Poets e nos 4 Hero a sua companhia favorita, isto sem referir os seus amigos de longa data King Britt and Josh Wink. "This sista got stories to tell..." Disto ninguém duvide. Basta recordar "The Return of Inocence Lost" uma canção que raramente apresenta em palco, dedicada à memória do seu irmão mais velho, espancado com um taco de baseball no Vernon Park, mais tarde morto a tiro num beco. A voz embarga-se, as lágrimas rolam silenciosas.
Ao vivo estreou-se no Zanzibar, um pequeno bar que abre os microfones, não para a imbecilidade mimética do karaoke, mas para os poetas se fazerem ouvir. Inscrita por uns amigos, nem a surpresa lhe retirou a memória ou o sentimento quando disse os seus dois poemas da noite. Desde então não parou, passando da pequena sala de 50 a 100 pessoas para os palcos onde Marcy Gray, Nina Simone, ou Gil Scott Heron lhe dão o microfone.
As influências de Ursula Rucker podem-se encontrar sem grande esforço em Frida Khalo, em Zora Neale Hurston, ou na sua professora de estudos afro-americanos Sónia Sanchez, determinante na sua iniciação como activista. Mas em "Supa Sista" existe espaço para o amor, talvez porque o marido Derek lhe tenha lançado o desafio: "Será que consegues escrever sobre o nosso amor?" Ursula conseguiu e 7, onde a colaboração de Mad é marcante, é uma bela canção de amor - uma eterna tábua de salvação num mundo impiedoso. As histórias são contadas ao ritmo da violência que encerram, ao ritmo da opressão que delapida as vontades, ao ritmo do terror que enche o imaginário dos que as presenciam, ao ritmo da dor experimentada pelos que as vivem - sexualidade, racismo, pedofilia, violação, política, amor. A dor de uma alma em aflição ou apenas a determinação de uma vontade feminina declinada em tons de negro, a tradição oral urbana ganha novos contornos com as palavras de Ursula Rucker.
Ana Cristina Ferrão
(Mondo Bizarre # 9)
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