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VINCENT GALLO
O SOLITÁRIO
"When" é a oportunidade de espreitar o estranho mundo "privado" de Vincent Gallo. Dez temas gravados no estúdio que Vincent denomina pomposamente como "university for the development and theory of magnetic tape recorded music". Pavor ao digital, ou apenas uma incursão deliberada na sonoridade vintage-kitsch?

Consta que no grande ecrã irá encarnar a personagem Charles Manson. É um homem solitário, extremo nas posições e nas palavras, confesso Republicano, hustler por profissão, amante de bicicletas, pintor, músico, cineasta, actor... Falamos naturalmente de Vincent Gallo. A razão é o seu novo álbum, desta vez a solo e que se intitula simplesmente "When". Fã dos Beatles desde que comprou, aos 5 anos, "Sergeant Pepper's Lonely Heart's Club Band", mesmo sem ter um gira-discos para o conseguir ouvir, aplicando assim a prenda de Natal dos pais - 1 dólar. Falar da infância de Vincent Gallo e não falar de "Buffalo 66" é no mínimo fugir à verdade dos factos. Autobiográfico, escrito, realizado, musicado e interpretado por Vincent, "Buffalo 66" é um exorcismo dos fantasmas que o perseguem. A fuga de casa aos 16 anos, rumo a Nova Iorque, levou-o a viver os anos loucos da Factory, a viver em casa de Basquiat e até formar com ele os Gray, uma banda que tocou no CBGB's, Max, Hurrahs e até uma única vez no seminal Mudd Club.

Nesse dia a banda terminou. Seguiram-se outras: Bohack, a incursão no hip-hop como Prince Vince que lhe valeu um tiro numa perna numa luta de gangs, Bunny com Lucas Haas e diversas bandas sonoras. Sobrou-lhe tempo para o heroin-chick dos anúncios da Clavin Klein, para continuar a colecção de guitarras antigas e montar o seu próprio estúdio. Em tudo o que faz Vincent mantém um contínuo, uma característica peculiar que leva os fãs a reconheceram o produto do génio - só faz o que gosta, só diz o que pensa, só age em função das suas emoções. Talvez por isso tenha expulso a namorada Bethany de casa, quando se esqueceu de lhe dar um prenda de anos. Talvez por isso a contracapa de "When", na versão LP, seja um coelho. Vincent adora coelhos, mulheres e sexo compulsivo. No entanto ao ouvir "When", apenas a solidão ressalta ao ouvido: lenta e insidiosa, penetra na alma dos incautos e ocupa-a de forma selvagem. "Honey Bunny", "Apple Girl" ou a faixa homónima "When" sussurram amor e desespero à la Ben Watt misturado com o romantismo fanado de Frank Sinatra. Vincent é assim: ou se ama ou se odeia. Para ele, qualquer das opções é irrelevante.

Ana Cristina Ferrão
(Mondo Bizarre # 9)