PAUL WESTERBERG
MANTENDO A TRADIÇÃO XXI
Em 2003, Paul Weterberg apresenta-se confiante e numa fase bastante produtiva. O ex-Replacements edita agora o documentário “Come Feel Me Tremble” e um álbum com o mesmo nome que é a banda sonora do filme. Também já disponível está o álbum “Dead Man Shake”, assinado pelo seu alter-ego Grandpaboy. Em 2004, sairá mais um álbum, de nome “Folker”.
Os Replacements foram uma das formações mais importantes do indie-rock americano dos anos 80. A influência do grupo pode-se ouvir na obra de gente como os Soul Asylum, Nirvana, Pete Yorn ou Ryan Adams. Paul Westerberg foi o grande timoneiro a bordo desta banda seminal de quatro rapazes com uma visão muito particular do que o punk-rock devia ser, aventurando-se pelo hard-rock ou pelos blues se lhes apetecesse. Mas a excelência da banda nos seus melhores discos deve-se acima de tudo ao autêntico jorro emocional do género deitar-tudo-cá-para-fora, que caracteriza a escrita de Westerberg, responsável por algumas das melhores líricas que o rock americano conheceu. O seu estilo doce-amargo, ternurento, rude, caótico, inteligente, cómico, num registo algo disfuncional e de auto-abandono, seduz de imediato pela incrível sensibilidade em escrever sobre assuntos como os mistérios do amor e das relações, chegando a ser comovente ouvir o seu canto vindo directamente do coração.
Após o final dos Replacements, o músico de Minneapolis editou álbuns a solo como “14 Songs” ou “Suicane Gratification”, que não possuem a urgência e a vertigem punk-rock dos tempos da banda que lhe deu notoriedade. Westerberg está mais velho e mais sábio. A sua música já não possui aquela paixão de tocar rock`n`roll rápido e com o volume no máximo. Está agora mais calmo e a sua vertente folk é mais acentuada, o que não agrada a todos os seus fãs. No entanto, os trabalhos mais recentes “Mono” e “Stereo” foram vistos como o seu regresso à boa forma. “Mono” aproxima-se mesmo do espírito rock dos Replacements.
Enquanto não nos chega às mãos o filme, contentemo-nos com a banda sonora. “Come Feel Me Tremble” é mais um lote de canções bem ao seu estilo, mas sem grande chama e longe dos seus melhores momentos. Alguns destes temas soam como outtakes de “Mono”, mas sem o fulgor e a inspiração desse disco. “Dead Man Shake”, editado na prestigiada Fat Possum e de novo creditado ao seu alter-ego Grandpaboy, é um álbum essencialmente de blues-rock, com resultados bem mais animadores. Como Grandpaboy, o músico diz não pensar duas vezes, compondo de uma forma mais espontânea, não conceptualizando muito o que sai, limitando-se simplesmente a tocar. Aqui Westerberg deixa de lado a sua faceta mais pop ou folk e entrega-se de corpo e alma ao garage-rock-blues, apropriadamente lo-fi e com influências de Rolling Stones. “MPLS” é uma viagem ao início do rock`n`roll: puro, simples e cru; “Vampires & Failures” é Stones puro e duro; “No Matter What You Say” e “O.D Blues” são canções de blues em registo mais clássico. “Souvenirs” é uma bela incursão pela country e “I´m So Lonesome” é uma excelente versão de um original de Hank Williams. “What Kind Of Fool Am I” é Westerberg num estranho número de karaoke algures num qualquer bar decadente na América profunda. Westerberg mostra-se aqui fiel às raízes da música americana, oferecendo-nos um álbum vibrante, áspero e sujo.
Nuno M Castêdo
(Mondo Bizarre # 17)
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