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THE WHITE STRIPES
NA NOITE FRIA
De uma ideia inicial de minimalismo em torno do objecto rock’n’roll, os White Stripes saltaram, em poucos anos, para um ideário completo de intenções e posturas. A genuinidade mantém-se intacta mas as aspirações são, agora, de dominação global. Eis uma banda em autêntico estado de graça, alheia ao pensamento que sobre ela se produz.

“Elephant”, o quarto álbum de Jack e Meg White, começa com aquilo que parece ser um som de baixo numa banda que não usa baixo. “Seven Nation Army” evidencia vocalizações distorcidas e apresenta, de imediato, a bateria sincopada característica de uma Moe Tucker rejuvenescida. Continua com um desvario eléctrico chamado “Black Math” onde a guitarra cavalga em altos decibéis e salta para “There’s No Home For You Here”, que arranca com um coro ao jeito dos Queen, e retrata a desilusão amorosa em mais uma variante do espectro “whitiano”.

E bastam três músicas para surgir em cena uma estranhíssima sensação de pertença. Isto é música indiscutivelmente enraizada na tradição folk-rock-garage americana, que nos habituamos a apreciar enquanto exercício emocional (e até de um ponto de vista histórico) mas que nos White Stripes soa a qualquer coisa mais essencial que a mera contemplação da apropriação do passado ou procura de impulsos eléctricos. Como se Jack e Meg White vivessem o passado com o coração nas mãos, numa viagem temporal em que a nostalgia não existe enquanto reflexo da distância. Em que existe enquanto reflexo do último fôlego, presente aqui e agora e capaz de produzir um encantamento imediato, sem necessidade de recorrer à máquina do tempo para justificar opções ou procedimentos. E quanto Meg se atira a “In The Cold, Cold Night” numa postura de desajustadíssima cantora de cabaret (como se fosse chamada ao palco sem uma ideia precisa do que se pretende num número blues) e nos apercebemos que não poderia resultar de outra forma, então é caso para não se tocar e deixar assim como está, intacto, vital apesar de provavelmente frágil e à beira da ruptura. Três minutos onde o beijo da perfeição deixa-nos com medo de mexer os lábios.

Chega-se a meio de “Elephant” e a sensação, para além de pertença, é de receio. É que o novo álbum dos White Stripes parece ser tão bom como “De Stijl” e “White Blood Cells” que isto tem mesmo que acabar bem. Tem ainda a grande vantagem de cruzar os imaginários distintos dos dois álbuns anteriores, oferecendo o melhor dos dois mundos. E se “Black Math”, como vimos, se encontra do lado do rock mais agreste presente em “White Blood Cells”, as confessionais “I Want To Be The Boy” (o piano a dar um toque de distinta classe) e “You’ve Got Her In Your Pocket” podiam figurar em “De Stijl”. Esta última opera o milagroso efeito de segredar adolescências filtradas pela idade adulta, em fragilidade extrema e honestidade a toda a prova – um caso de verdadeiro talento de composição.

“Ball and Biscuit” escalda os ouvidos no seu deambular blues pára-e-arranca tão próprio de Jon Spencer Blues Explosion e se não é uma reinvenção do género, respeita-o devidamente. E até um murmúrio pop pode extrair-se perfeitamente de “The Air Near My Fingers” onde, invariavelmente, nos vemos a cantarolar “dum dum dum” no meio de teclados que tanto os Deep Purple como os Doors poderiam ter usado há trinta e cinco anos atrás. O fim, “Well It’s True We Love One Another”, é um momento de humor mais do que bem vindo em que Meg canta “I love Jack White like a little brother” eternizando a discussão acerca da relação entre os dois elementos da banda (que aqui se juntam à voz de Holly Golightly). O alívio é evidente: “Elephant” é um álbum sem um único momento baixo, sem uma falha notória, sem desperdício. Um disco de felicidade indescritível.

Perante um exercício tão vital emerge, novamente, a certeza de que o rock respira. Bandas de quadrantes diferentes como são os Von Bondies, The Coral ou Rocket From The Crypt (a heterogeneidade é propositada) ajudam a perceber que se pode perfeitamente viver o rock’n’roll sem o questionar. Que se pode encarar o objecto rock como moeda corrente ao invés de o enjaularmos em gavetas históricas como se fez com o jazz ou com o blues. Que se pode acreditar que o fluxo de “standards” ainda não acabou e que a evolução é mais do que evidente ainda que, às vezes, pareça ruminante. Os White Stripes revisitam o rock mas fazem disso o seu ponto de partida. Operam como historiadores que, por vezes, são obrigados a ver o presente à luz dos exemplos do passado. São exímios conhecedores das bases e dos arquétipos mas não se limitam a reproduzi-los – criam um novo acervo que, a haver justiça, perdurará no tempo ainda que, pela relatividade da análise histórica, se possa vir a categorizar como um eterno segundo momento rock, sempre segundo em relação ao primeiro.

“Elephant” é o quarto grande álbum dos White Stripes, uma banda que – por favor! – deve ser ouvida bem distante do ruído de hypes, modas ou tendências e que, sobretudo, não deve ser julgada pela repetição. A repetição (o mesmo riff, o mesmo ritmo, a mesma linha vocal) é, nesta banda de Detroit, um luxo; o luxo do minimalismo que inebria e que espanta pela capacidade de encantar numa tal economia de meios.

Temas como “In The Cold, Cold Night” preenchem a alma mais solitária que com headphones encaixados nos ouvidos procura companhia. E fá-lo tão bem que desta vez até Blind Willie McTell estará mais do que convencido.

Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 15)