WILCO
ENTRE O PASSADO E O FUTURO
"Yankee Hotel Foxtrot" é o novo álbum dos Wilco de Jeff Tweedy, um dos fundadores dos inesquecíveis Uncle Tupelo. Após vários adiamentos, resultantes de vários problemas com a sua editora, podemos finalmente ouvir esta magnifica obra onde tradição e inovação caminham lado a lado.
Pouca gente reparou neles mas em finais dos anos oitenta, princípios dos anos noventa, os Uncle Tupelo estavam a fazer história. Aliando a fúria do punk às raízes do country, a banda de "Anodyne" espalhou a sua mestria por quatro álbuns, em que abundavam canções de uma urgência e visceralidade impressionantes. Foram tão belos e essenciais como os Hüsker Dü, e pelo menos, tão importantes como os Dinosaur Jr. ou Buffalo Tom. Os discos da banda de Jeff Tweedy e Jay Farrar foram marcantes ao ponto de a imprensa musical ter começado a falar de um novo rótulo para definir a música do trio: "alternative country". Com o fim dos Uncle Tupelo, Farrar formou os Son Volt e Tweedy os Wilco.
Os Wilco dos primeiros tempos foram uma espécie de progressão natural, partindo das cinzas da sua anterior banda, e aprofundando a viagem pela imensa herança da música popular americana de raiz tradicional. Mas com o seu terceiro álbum, o brilhante "Summerteeth", os Wilco tornaram-se mais arrojados e abraçaram a pop mais solarenga, com claras influências dos Beatles, mas também evoluindo por uma via mais experimentalista. Os sucessivos adiamentos na edição de "Yankee Hotel Foxtrot", que viram a banda comprar os direitos do disco à sua editora, que alegara não ser o disco suficientemente comercial, para, no fim, o disco sair pela Knownsuch, uma filial da própria Warner, fizeram com que a instabilidade se instalasse no seio do grupo, levando o guitarrista Jay Bennett a abandonar os Wilco.
Ouvindo as canções de "Yankee Hotel Foxtrot", percebe-se a difícil relação entre arte e comércio. Se boa parte da música aqui contida não respeita a tirania "radio friendly" e os padrões do ouvinte médio, por outro lado é música vital e importante, numa época em que quase tudo é normalizado e formatado para rápido consumo. O quarto álbum dos Wilco é pura classe, meus amigos! Canções que partem maioritariamente da guitarra acústica ou do piano com um notável sentido melódico de cariz pop, mas de mãos dadas com um cada vez mais acentuado experimentalismo, a que não é alheia a colaboração de Jim O'Rourke nas gravações e mistura (Jeff Tweedy tocou em "Insignificance", o mais recente trabalho deste músico prolífico).
Os Wilco têm o mérito de terem um pé na tradição e outro no futuro, soando inovadores. Fazem questão de borrar a pintura: algumas destas canções começam num registo clássico e convencional para depois se desintegrarem, em deambulações fragmentadas e andamentos fantasmagóricos, onde a electrónica assume um maior protagonismo. O tom da voz de Tweedy oscila entre o desencanto e a esperança. "I Am Trying to Break Your Heart" canta Tweedy no fabuloso tema de abertura. Não duvidamos e de imediato nos rendemos à beleza magoada da sua voz, que nos toca bem fundo. Tal como somos arrebatados pela doçura pop de "Kamera" ou "Heavy metal Drummer". Num tom mais sombrio a atenção recai nos refinados exemplos da arte da escrita de canções moderna que são "Jesus, Etc" e "Poor Places".
Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 11)
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