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WIRE
A ARTE DE CONTINUAR
Se um dia a crítica musical se esquecer da idade dos artistas, os Wire serão lembrados como impulsionadores da tendência. Por enquanto, são uma das raras excepções à decadência que as longas carreiras costumam conhecer. E até parece fácil...

Poucos são os artistas que resistem durante décadas às modas e aos movimentos que ajudaram a fundar. Exemplos como os de David Bowie ou Rolling Stones são o vértice de um exíguo icebergue sujeito à voraz erosão dos tempos. No caso do autor de “Ziggy Stardust”, o propalado efeito-camaleão valeu-lhe sucesso em quase todas as suas investidas, do glam-rock à electrónica. Os Rolling Stones, por seu turno, souberam – desde o fim dos anos setenta – fazer sempre a mesma música sem que os fãs virassem as costas. Fora das franjas da visibilidade, outros artistas conseguiram o mesmo. Os Residents, valendo-se da incógnita em torno da identidade dos seus elementos e da intervenção multimédia; Peter Hammill, pela intensa actividade discográfica, impoluta e pessoalíssima; os Sparks e os XTC, pela manutenção da palavra e do acorde pop.

Da fornada punk que, em poucos meses, ofereceu à música moderna nomes como Stranglers, Buzzcocks, Joy Division e Clash, os Wire são um dos exemplos mais próximos da sobrevivência atrás mencionada. Entre 1977 e 1979 lançaram três álbuns que a história da música recente se habituou a considerar “o estado da arte” do punk britânico: “Pink Flag”, “Chairs Missing” e “154”. Enquanto os Buzzcocks ou os Undertones davam à luz prodigiosos documentos de um punk adocicado pelo lúdico travo da pop, os Wire pegavam na básica estrutura punk e introduziam-lhe elementos de tensão sónica capazes de transformar o mais breve e incisivo modelo punk num desafiante manifesto artístico passível de abordagens para-musicais. Temas como “French Film Blurred”, “Reuters” ou “I Am The Fly” misturam uma estreiteza de meios com a tensão e a frieza próprias de uma banda-sonora de um presente em mutação. Só nos últimos anos da década de oitenta os Wire voltariam aos discos, destacando-se o elogiado “A Bell Is a Cup... Until It Is Struck”, onde o tempero pop dá braços a ritmos dançáveis.

É sensivelmente dez anos depois dos últimos vestígios editoriais que surgem dois EPs reveladores dos Wire em topo de forma. “EP01” e “EP02” congregam alguns dos melhores comprimidos punk-electro-industrial da temporada, distintos da concorrência mais jovem pela intensidade de um boredom e no future próximo do de 77 mas visto, novamente, com os olhos do presente. Os Wire não apelam, pois, ao revivalismo e ao rememoriar de glórias antigas – actualizam-se em “In The Art of Stopping” e “Germ Ship” com guitarras tensas, banhadas por uma electrónica nem sempre discreta que confere uma aspereza industrial a camadas de guitarras de hipnose e nervosismo que têm em “Trash-Treasure” o seu momento pop mais descontraído. Mais do que provas inequívocas de resistência, passa por aqui a eterna juventude da música que interessa.

Luis Guerra
(Mondo Bizarre # 14)