WOLF EYES
A MÚSICA DAS BESTAS ESCONDIDAS
Com “Burned Mind” os Wolf Eyes levam o ruído da home-made electrónica ao coração da nossa conhecida Sub Pop. Emboscados nas heranças do hardcore americano e do metal, desafiam quem os ousar compartimentar num qualquer espaço, seja ele teórico ou concreto. É que a sua música não se domestica: arrasta-nos antes de nos tragar…
Quando em Junho passado Simon Reynolds apontava, no seu blog (http://blissout.blogspot.com/), “Songs About Fucking”, dos Big Black como a obra que já simbolizava um esgotamento do noise no contexto da música popular, talvez ainda ainda não tivesse ouvido “Burned Mind”. Não que o primeiro registo dos Wolf Eyes para a Sub Pop venha necessariamente provocar uma ruptura, mas a sua natureza está bem distante dos ritmos sincopados do Roland, do crispar fixo das guitarras de Albini e Durango ou do explorar irónico dos obscuros mitos dos EUA. Nada de dance-fuck em “Burned Mind” portanto. Nem, já agora, de auto-convencimento. Nate Young, Aaron Dilloway e John Olson até podem surgir associados a certos nomes do noise enquanto forma musical autónoma (Throbbing Gristle, Whitehouse, SPK) mas não exigem uma leitura perfeita ou apologética daquilo que fazem. Isso é até impossível.
Capítulo final ou (fundador) de um work-in-progress esta estreia pela editora de Seattle é despojado de qualquer significância política e desenvolve-se como uma banda sonora de um filme onde as personagens são exactamente os ruídos das máquinas, a voz metálica de Dilloway, o eco do gongo, ou a monotonia lenta, e por isso enervante, das batidas. Se os Big Black eram falsos narradores de histórias então os Wolf Eyes são os falsos intérpretes dessas mesmas histórias. Ou do imaginário cuspido pelas imagens em grão de filmes de terror dos anos 80 ou, por que não, das mais límpidas que os noticiários nos oferecem.
Acrescente-se que os três músicos são confessos adeptos daqueles que são considerados os géneros menos inteligentes do rock (hardcore e metal) fazendo jus à sua condição de headbangers educados no moshpit ou nas rampas de skate. Temas como “Village Oblivia”, onde a guitarra se contorce em crescendos repetitivos, ou “Rattlesnake Shake” que reproduz o som do silvo da serpente em simultâneo com um drone em loop, agradariam ambos ora aos adeptos do metal mais extremo, ora aos simpatizantes dos Black Flag quando Greg Ginn começou a desacelerar os tempos. Subsiste então a falta de velocidade que emerge em todo o seu esplendor nos concertos do grupo.
“Burned Mind” não é “Reign In Blood”, como os próprios – há quem diga – gostariam que fosse. É antes um disco de psicadelia, ou para ser mais rigoroso, um disco de música ambiental. É muzak o que ouvimos em “Black Vomit” ou “Ancient Delay” mesmo que isso não nos agrade ou gostássemos de evitar. Contudo ao longo dos nove temas não encontramos a certeza da existência da caricatura ou da ironia distanciada (como nos Big Black). Faltam-nos coordenadas. Simon Reynolds é capaz de ter razão quando afirma que o noise está saturado de bagagem teórica, abstracções e racionalizado, mas este trabalho vem vazio e de rosto fechado. E destapá-lo é uma violenta aventura.
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 20)
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