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YO LA TENGO
SUAVE BRISA DE VERÃO
Parece que os Yo La Tengo inverteram de vez a lógica sónica que tem caracterizado a já longa carreira da banda de Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew. O álbum anterior, “And Then Nothing Turned Itself Inside-Out”, foi o primeiro passo que a suavidade e leveza da pop melódica de “Summer Sun” veio confirmar.

Depois de “And Then Nothing Turned Itself Inside-Out”, onde os Yo La Tengo se refugiaram, pela primeira vez, do habitual estertor sónico a que nos habituaram nos últimos 20 anos, seria de esperar que no álbum seguinte se registasse um regresso à “normalidade”. Ainda mais se tivermos em conta o interregno de três anos entre os dois registos. A verdade é que sucede exactamente o contrário. “Summer Sun” é a continuação do percurso traçado no álbum anterior, se bem que menos obscuro e com uma componente mais swing. Não é tão imediatamente cativante e tão hipnótico, mas o facto de nos obrigar a descobrir os pormenores torna a experiência mais gratificante. Talvez porque o disco é todo ele bastante minimal, numa demonstração de que menos é muitas vezes mais. Mas sem qualquer tipo de pretensiosismo. Apesar de não ser de admirar se começarem já a surgir classificações do tipo pós-rock e krautrock para este disco e para a própria banda, cujo originalidade nunca foi muito reconhecida no meio musical.

Considerações e definições à parte vamos à música, que é o melhor que se retira de “Summer Sun”. Começa-se na quase imperceptível abertura que é "Beach Party Tonight" e que se metamorfoseia na simpática alegria de “Little Eyes”. Passa-se pelo quase sinfónico "Tiny Birds", pelo fabuloso groove de "Moonrock Mambo" e pelos sussurros de "Don't Have To Be So Sad”. Para acabar numa deliciosa versão de “Take Care” dos Big Star. Sem esquecer os já habituais devaneios de dez minutos, de que o inebriante "Let's Be Still" é um exemplo acabado. Ou por instrumentais inspirados, como acontece no também inspirado título “Georgia Vs. Yo La Tengo”. Tudo embrulhado numa cuidada produção.

Se à primeira auscultação este é um disco que quase nos passa ao lado – a maioria das canções são construídas a partir de guitarras lo-fi, baixo, baterias vassouradas, alguns sopros e muito piano e órgão – à medida que as audições se vão sucedendo, as descobertas revelam-se como o desabrochar de uma tímida flor em início de Primavera. Ou neste caso de Verão.

A inspiração de “Summer Sun” situa-se assim algures entre o rock de veludo de uns Velvet Underground (a voz de Georgia Hubley aproxima-se cada vez mais de Nico), o sabor a Verão de uns Beach Boys e a experimentação de um Sun Ra. Mas sem as guitarras do primeiro, sem os devaneios dos segundos e sem a demência do terceiro. Um disco para amantes dos Yo La Tengo, mas que se aconselha a todos aqueles que precisam de fazer uma pequena pausa do stress diário. Um disco que deve ser ouvido com o som bem alto, e de preferência na companhia de um martini. Porque só assim se descobrem as idiossincrasias escondidas em “Summer Sun”.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 15)