Discos
AIR
TALKIE WALKIE CD Source/Virgin/EMI

Quão mais aburguesada e balofa pode vir a ser a pop? Jean-Benoit Dunckel e Nicolas Godin, a dupla Air, têm vindo a recuperar para o mainstream tudo o que a uma determinada altura se considerou dispensável na música popular. A pompa pseudo-artística, os tiques de uma música educada e snob, os restos das convulsões hippies transportadas para o aconchego do sofá, a forma como triunfo esmagador sobre o conteúdo. Da aparente inocência kitsch de “Moon Safari” ainda era possível esboçar um sorriso irónico pelo descaramento. Mas depois do sucesso que se seguiu e com “10 000 Hz Legend” os Air levaram-se a sério e decidiram recuperar todos os piores tiques da pop desacreditada dos anos 70 e 80. Com “Talkie Walkie” não há grandes novidades: é papel de parede desenhado pelos melhores designers do género. Sofisticação para ouvir no trabalho ou em casa acompanhado pela família. Sons que não irritam o bichinho do ouvido, flautinhas e sintetizadores harmoniosos que nos envolvem num torpor que tanto propicia ao acender de um charro como nos fazem apetecer cozinhar um assado. Não é new age, mas serve para ambientar massagens; não é electrónica, mas tem aquele je-ne-sais-quoi que agrada aos apreciadores das novas tendências, também não é psicadélico, mas tem uns barulhinhos marotos que garantem a estima dos cultores da alta-fidelidade. Em “Talkie Walkie” há ecos de 10CC, Pink Floyd, bandas sonoras de Ennio Morricone, Tangerine Dream talvez mesmo Supertramp, tudo liofilizado e reprocessado pelo state of the art da produção actual o que não é crime nenhum numa época de reciclagens de tudo e mais alguma coisa - o que espanta é ainda dizerem que o rock passa o tempo a repetir-se… Pior que isso é o vazio armado de grande pompa estética que daqui sobressai. Os Air são meticulosos nos pormenores e verdadeiramente geniais na sua arte de transformar o lixo num luxo. Será isto a perfeição sonhada pela pop? (4/10)

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 18)