ANIMAL COLLECTIVE
SUNG TONGS CD FatCat/Ananana
À medida que o Animal Collective prospera, as potenciais referências de género parecem cada vez mais difíceis de estabelecer, tanto pelas falhas inerentes a todos os conceitos generalizados, como pelo sua aproximação ao que no futuro poderemos considerar História. Hoje, uma análise à sonoridade deste trabalho teria de percorrer uma larga ordem cronológica universal, capaz de incluir tudo aquilo entendemos como música: desde o som mais ingénuo e primitivo que se reproduziu sob a forma de ritual ou evocação nos primórdios da humanidade, até aos métodos mais revolucionários e complexos de composição como o atonalismo ou a dodecafonia. Num passado menos impenetrável, talvez meia dúzia de nomes e descrições de temas fossem suficientes para informar, situar e tecer eficazes cartografias sobre a música de Avey Tare e Panda Bear. Como uma espécie de purificação étnica, a dimensão de “Sung Tongs” reside na sua capacidade de abranger milhares de caracteres, raças e identidades, transformando a realidade multifacetada e consensual em que vive, numa unanimidade de ecos de ninguém, com pessoas aparentemente desligadas e distantes a poderem exprimir as mesmas frases, utilizando as mesmas palavras, impregnadas das mesmas linguagens e significados. De alusivo chega-nos o reflexo de uma civilização, amálgama de culturas onde a intuição e a técnica convergem ao ritmo dos números de Wall Street, múltiplos da imensidão de circuitos eléctricos que se desencadeiam, circulam e apagam abaixo do solo. A imagem de uma América onde a subversão acontece no limbo entre a superfície e o subterrâneo; onde tudo aquilo que em separado poderia facilmente descambar numa mistura incoerente de elementos díspares, se reconcilia e reconduz progressivamente a uma única estética e a uma nova verdade. (10/10)
Joana de Deus
(Mondo Bizarre # 19)
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