BILLY BRAGG
MUST I PAINT YOU A PICTURE 3 x CD Rhino
A quadra natalícia tem destes estranhos paradoxos. Ora nos oferta erráticos recuerdos musicais. Ou, como no caso de "Must I Paint You A Picture", nos dá de bandeja momentos sonoros únicos.
O nosso canal auditivo, ciclicamente, recebe: álbuns ao vivo, acústicos, antologias, gravações com orquestras sinfónicas (e a lista poderia continuar), devassados pela gula de vários dos integrantes do processo musical. Felizmente, e em época que tal desiderato pode ser tido como distúrbio cognitivo, Billy Bragg milita. Na música. Por convicção.
Bragg, criou ao longo da vintena que esculpe o seu percurso, zonas de diálogo entre o punk rock e a folk. Simultaneamente, como purga relacional e denúncia política e social. Talvez o entendamos melhor nas margens de "Must I Paint You A Picture". A cinza e o vermelho nos descreve "most important things decisions in life are made between two people in bed", mordaz composição, súmula de ideário, que dá nome a esta brilhante antologia. Militante? Absolutamente.
Edição imprescindível, "Must I Paint You A Picture" reúne em três tomos, quarenta temas – na sua grande maioria tirados de uma inquirição cibernáutica efectuada através do site de Bragg. E dez raridades, entre versões de Cale ou The faces, e devaneios da “Mermaid Avenue”, caminhada paralela com os Wilco no trilho de Woody Guthrie. Feita a incursão pictórica, em Bragg realça-se a notável e hábil construção de canções. Recorrente, o amor. A beleza agridoce, a ternura temperada com desesperança. Insolente, a crítica. A acidez das palavras. Naturalmente, se de uma antologia se trata, poderá existir a tentação de esperar uma monocórdica captação de singles mais ou menos poeirentos. O problema aqui resulta da qualidade das escolhas. Inequivocamente, boa. Temos a óbvia pop tempestuosa de " A New England", passando pela aridez política de "There Is Power In A Union", o turbilhão irónico de "Between The Wars", e a imagem fugaz de sucesso "Sexuality", mas somos por outro lado contemplados com pérolas resgatadas do covil de Bragg, casos dos cintilantes "Way Yonder In A Minor Key", “The Boy Done Good" e do notável "Seven And Seven Is". Baralhando os dados, espero não ser necessário "fazer um desenho" para definir esta obra como uma jogada antológica de Billy Bragg... (9/10)
Nuno Oliveira
(Mondo Bizarre # 17)
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