COMETS ON FIRE
BLUE CATHEDRAL CD Sub Pop/Músicativa
Santa Cruz, Califórnia será eternamente a terra com o mais elevado número de Deadheads per capita. Não demasiado longe das sequóias e lagos da Redwood Forest, relativamente perto de Frisco, a terra com o maior número de (ainda) adeptos dos criadores de “Black Star” é um misto de potheads, campus universitário (duas coisas perfeitamente interligadas) e gente normal, num estado que recentemente produziu Devendra Banhart, Joanna Newson ou o colectivo Jewelled Antler. “Blue Cathedral” é o terceiro longa-duração de estúdio desta banda de Santa Cruz, depois de um álbum homónimo pleno de fúria primitiva, anfetaminas e Jack Daniels, numa cave com três corpos e mentes a perder o controlo, e de “Field Recordings From The Sun”, registo gravado já com um novo guitarrista, o mago das seis cordas Ben Chasny (Six Organs Of Admittance) e um fabuloso baterista substituto, Utrillo Kushner, a providenciarem um visível alargamento do espectro estético e criativo da banda. Assinando pela Sub Pop em simultâneo com os bad boys do noise, o trio de Michigan Wolf Eyes, no que acabou por ser o momento em que a editora do som de Seattle se voltou finalmente a interessar pelo que de mais relevante se vai fazendo pelo underground norte-americano, “Blue Cathedral” marca uma época em que a interpretação e idiossincrática rendição de inspirações dos Comets On Fire se coagulam numa linguagem rock já totalmente sua. Da corrosão dos japoneses High Rise e Mainliner, do psych-fuzz dos melhores Quicksilver Messenger Service e dos primeiros Blue Cheer, dos teclados dos Pink Floyd, circa “More”, até ao mantra misticista da faixa “Brotherhood Of The Harvest”. Suor, excesso, lirismo, melancolia estelar electrificada por válvulas celestes; Ethan Miller pivoteando um quinteto com um grito de raro impacto a passar pelo echoplex cósmico de Noel Harmonson. O álbum intercala os rockers mais esfuziantes dos Comets com lânguidos instrumentais, plenos de teclados e de estratosférica e sentimental lírica rock, de coração cheio de vibração e mágoa. Disco quase imaculado, em que o único reparo a fazer é uma quase inconsequente jam que constitui a última faixa, “Blue Tomb”. Ponto de ligação perfeito entre os públicos da psicadélia rock e folk, que deverá colocar salas de concertos cheias de folkies a espalhar piolhos para cima de gente que deixou a t-shirt de Stevie Ray Vaughan em casa para dar uma segunda vida àquela fractal que não saía há tanto tempo do armário. (8,5/10)
Pedro Gomes
(Mondo Bizarre # 20)
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