Um dos riscos inerentes à criação de um espaço de intervenção aparentemente identificado e delineado é o de nunca de lá querer ou conseguir sair. Na música, isso significa que quando um artista ou um grupo se situa num ponto estético confortável apesar de solitário corre o sério risco de fazer o mesmo disco vezes sem conta. Porque sabe bem, porque é o que conhece e domina melhor. Os Dead Combo, de Tó Trips e Pedro Gonçalves, poderiam muito bem ser um desses casos.
Como se sabe, o primeiro volume desta viagem a dois pintava já a giz no alcatrão um universo de actuação raríssimo e delimitado pelo imaginário western, gingão e subliminarmente português para não dizer lisboeta (mesmo que falar de peremptoriamente de fado a propósito dos Dead Combo seja uma divagação). Seria, então, o Vol. II igual ao primeiro? Resumidamente, sim. É de facto irmão do primeiro. Só que os Dead Combo mostram, à semelhança de bandas tão díspares quanto uns Morphine, uns Stereolab ou uns Spacemen 3, no quarto que escolheram habitar, que os mesmos brinquedos podem ser usados em actividades lúdicas sempre novas.
“Quando A Alma Não É Pequena” assenta, naturalmente, nos dedilhados vindos de middle of the road executados por Tó Trips (que com o fim dos Lulu Blind adquiriu alma musical bem mais profunda) e no registo grave, sobretudo nas cordas, de Pedro Gonçalves, que se encarrega de oferecer o peso do contrabaixo. Mas não é, para bem do acto de criar, só isso. Em “Quando A Alma Não É Pequena” pode, com naturalidade, saltar à vista que qualquer novidade só poderá vir das mãos de convidados como Paulo Furtado, Sérgio Nascimento ou Nuno Rafael. O que é verdade, até certo ponto. Porque o que aqui importa não é tanto quem o faz, mas como é que os adornos são feitos e colocados na música dos Dead Combo.
Muito bem, diria sem pestanejar. É claro que vai continuar a falar-se de música de westerns, e a inclusão de um tema intitulado “Mr. Eastwood” parece dar o aval ao sentimento, mas nunca a coisa se esgota aí. Na realidade, é muito mais assimilar à primeira elementos com origem nos blues, no tango, num fadinho corrido ou mesmo no flamenco do que uma coboiada de John Wayne. Os Dead Combo resolveram não se afastar muito do seu acampamento e, mesmo com área de intervenção não muito ampla, fazem instrumentais (mas não só) que mostram haver ainda o mundo inteiro para descobrir no espaço de dois metros quadrados. (8/10)
Pedro Gonçalves
(Mondo Bizarre # 26)