DEVENDRA BANHART
NIÑO ROJO CD XL Recordings
Do mesmo inspirado e belo local de onde nasceram as canções de “Rejoicing In the Hands” (a sessão de gravações em Atlanta donde resultou um sem número de temas) surge agora o prometido “Niño Rojo”. O barro é o mesmo, mas a obra é outra, e não são muitos os que se reinventam desta maneira. Do primeiro para o segundo disco sobreviveu a leveza das canções, a espiritualidade e o misticismo. Embora compostas em 2004, estas canções – assim como as de “Rejoicing In the Hands” - parecem ter sido arrancadas de uma caixa empoeirada que não viu a luz do dia durante algumas dezenas de anos, tal a intemporalidade, e , ao mesmo tempo, frescura que transportam. Coadjuvado uma vez mais por Michael Gira, Devendra Banhart parece muitas vezes cantar só para si, numa tarde de um quase ofuscante sol, procurando entusiasticamente o espiritualismo e (ainda mais uma vez) o regresso à infância. A prova disso é “Wake Up, Little Sparrow”, uma versão para um original de Ella Jenkins, tema que abre o disco. Segue-se-lhe o hipnotismo de “Ay Mama” – onde se tenta impedir o choro de uma mãe -, o espalhafato feliz de “We All Know”, a já familiar estranheza impregnada na animalesca “Little Yellow Spider” e a beleza enternecedora de “At The Top”, escrita com Andy Cabic dos seus companheiros Vetiver. Aqui confunde-se sonho com loucura, alquimia com desejo e ainda há tempo para alguns devaneios: “Cook me in your breakfast / And put me on your plate / ‘Cus you know I taste great”. Há até, imagine-se, o chilrear dos pássaros na doce e sonhadora “Water May Walk” e todo um mundo para (re)descobrir. Resultado: a dupla “Rejoicing In the Hands”/“Niño Rojo”. A sua beleza ficarão perpetuadas durante muitos e muitos anos. (8/10)
André Tiago Gomes
(Mondo Bizarre # 21)
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