THE FALL
FALL HEADS ROLL CD Sanctuary/Edel
Sejamos simpáticos: não deve haver mais do que meia dúzia de bandas em todo o mundo que consigam conciliar uma longa carreira com um vigor intocável. Os Fall são um desses raros casos, claro. Talvez Mark E. Smith tenha encontrado na renovação permanente do grupo a receita para a eterna juventude do seu alter-ego The Fall. Afinal, se o mito dizia que Keith Richards rejuvenescera o seu corpo com uma transfusão total de sangue, porque não há-de o cérebro Smith fazer o mesmo para a saúde do tronco The Fall? Pelo menos, este é um caso verídico e com bons resultados.
(Quase) trinta anos, trinta músicos diferentes e noventa álbuns depois (incluindo colectâneas e registos ao vivo), o prazer que se retira dos Fall é renovado ao sabor das edições. Esta tese – a de que os Fall não sabem fazer maus discos, tirando um outro caso pouco representativo – aplica-se uma vez mais a este novo “Fall Heads Roll”.
A propósito, pode não querer dizer nada, mas este título soa mesmo a mais uma brincadeira do sarcástico Mark E.Smith…
Já agora, outras brincadeiras do mesmo género podem ser encontradas nas letras das canções, se o leitor quiser aproveitar e deixar-se levar pelo passatempo preferido de alguns fãs mais febris do grupo: encontrar referências escondidas ou sentidos perversos dados às palavras, numa escrita encharcada de sarcasmo como é a de Smith. “Fall Heads Roll” começa com “Ride Away”, uma espécie de reggae de cabarê, onde Mark E.Smith cantarola como um velho “bife” embriagado em frente a um karaoke (e não foi sempre assim?). “Pacifying Joint” acelera um pouco e remete para um conjunto de temas mais próprios dos Fall dos últimos anos, com o teclado de Elena Poulou (a actual sra. Smith) a impor o ritmo.
Curiosamente, o tema que se segue, “What About Us?”, pega nesse mesmíssimo padrão rítmico e melódico e envolve-o com uma letra diferente (o refrão é mais orelhudo) e outros adornos, mas não deixa de soar ao mesmo. Algo do mesmo género acontece com os temas “Midnight In Aspen” e “Aspen Reprise”, mas entre estas intromete-se uma das melhores faixas do disco, “Assume” (“If you are a Hume / You assume”).
O disco continua com outros grandes momentos, como “Blindness” (um crescendo inebriante), “I Can Hear The Grass Grow” (leitura falliana para um dos primeiros singles dos psicadélicos The Move), “Bo D”, “Youwanner” (a maior desbunda do disco) ou “Clasp Hands” (rockabilly falliano). Mas, como a nódoa pode cair no melhor pano, o álbum termina de uma maneira francamente desnecessária. “Trust In Me” mais parece uma faixa roubada aos Placebo, onde nem sequer Mark E. Smith, por mais estranho que possa parecer, escapa à imitação da voz de Brian Molko. Era escusado. (8,5/10)
Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 24)
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