Discos
GANG OF FOUR
RETURN THE GIFT 2 x CD V2/Edel

Heresia! Pensarão os puristas que levaram tanto tempo a polir o brilho ao seu culto de eleição, para depois terem de encaixar as manias dos seus ídolos quando estes se lembram de voltar, velhos e carecas, a mexer nas suas próprias criações elaboradas no período de graça da juventude. Afinal, para quê tocar naquilo que o tempo já atestou como válido? Poucos se atrevem a tiradas destas – quanto muito, haverá bandas regressadas que gravam um álbum ao vivo para capitalizar num sucesso alcançado à posteriori.

Mas, a verdade, é que os Gang Of Four nunca foram propriamente uma banda politicamente correcta. Inevitavelmente Andy Gill acaba por ter razão: ouvir “Return The Gift” é uma experiência totalmente diferente de ouvir os mesmos temas gravados há quinze ou vinte anos. Mas não porque os Gang Of Four de hoje pareçam mais velhos e enfraquecidos do que os do passado. Estas 14 canções retiradas da discografia básica da banda – “Entertainment”, “Solid Gold” e “Songs Of The Free” – soam perfeitamente sólidas, como se a banda tivesse feito apenas um pequeno intervalo e regressasse em plena forma após uma digressão de aquecimento.

Claro que é impossível recuperar a urgência e ansiedade dos primórdios, mas a menor frescura é largamente compensada por um know how e solidez que só se ganha com o tempo. E se, de alguma forma, esta for a introdução a uma nova audiência que os terá descoberto aquando da sua recente digressão, não se pode dizer que o cartão de visita desiluda. A tensão rítmica continua lá, agora mais encorpada por um baixo e uma bateria que continuam a não bater nos tempos que se esperava deles.

As guitarras entre o angular e o funky, imagem de marca de um dos mais originais e influentes instrumentistas do pós-punk, essas continuam a servir de áspero diálogo e complemento à voz esganiçada e inquisitiva do orador de comício - Jon King. Não é realmente de regravações como esta que se escreve a história da música pop - afinal, o que pode haver de melhor para os escribas oficiais que um “bonito cadáver”? - mas é verdade que toda uma nova geração de bandas britânicas andou a rapinar nestes ensinamentos, parecendo, portanto, justo que os criadores originais tenham a hipótese de se fazer ouvir no meio de tanto ruído.

No entanto, os Gang Of Four não foram ingénuos o suficiente para cometerem o muito mais arriscado acto de tentarem “recriar” os seus originais. Limitaram-se a despachar as suas velhas canções com a energia e o entusiasmo de quem não as questiona, deixando para as novas gerações essa responsabilidade resumida no CD-bónus com remisturas. Uma colecção com melhores e piores momentos, como de costume, mas que poderá ter a capacidade de alargar o germe desta música a novas e inexploradas áreas, em particular às pistas de dança mais adolescentes. (8/10)

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 25)