JOSH ROUSE
1972
CD Rycodisc/Edel
1972 foi o ano em que Josh Rouse nasceu e foi também o ano em que surgiu a Fender Telecaster, a sua guitarra favorita. Agora, em 2003, o músico sediado em Nashville revisita os anos setenta com alguma nostalgia. Está presente em “1972” um toque marcadamente retro, nomeadamente vestígios que nos remetem para alguma da melhor música negra que se produziu na primeira metade daquela década. Grande parte das canções aqui reunidas afastam-se do formato folk-rock dos três álbuns anteriores, abraçando sonoridades soul de há trinta anos, algo que foi feito timidamente em algumas das suas canções do passado, sendo agora plenamente assumido na orientação estilística que estes temas levaram. As heranças de gente como Marvin Gaye ou Curtis Mayfield são para aqui chamadas, presentes na elegância e sofisticação dos arranjos. Canções suaves, servidas por uma sensibilidade sulista que inclui cordas esplendorosas e metais sumptuosos, belos acordes de piano Fender Rhodes, baixo ondulante e groovy, gentis harmonias vocais, coros gospel e o calor proveniente da guitarra “abrasileirada” de Josh, próxima da bossa nova. O cantautor presta assim reverência à música soul, colorindo as suas canções de forma irresistível, num fenómeno idêntico ao que se sucedeu com os Lambchop, por alturas de “Nixon”. Este é também um trabalho ligeiramente mais alegre e luminoso do que os seus antecessores: o single “Love Vibration” (escrito na Austrália durante a digressão de “Under The Cold Blue Stars”, celebrando a boa gente e magnífico clima que se pode encontrar por lá) é uma solarenga canção pop estupidamente viciante. É um dos vários momentos que trazem alguma leveza ao todo. Ainda que, no último terço do disco, volte a densidade emocional do songwriting a que Josh nos habituou: simples, melancólico, tranquilo e introspectivo. “1972” é mais um álbum brilhante na carreira de Josh Rouse e o mais arrojado e ambicioso em termos estéticos, repleto de grandes canções que retratam a complexidade da condição humana, com as suas alegrias e tristezas, esperanças e desilusões, relações amorosas e tudo à volta. Num álbum espantosamente coerente e diversificado, atrevo-me a destacar “1972”, “James”, “Under Your Charms” e “Flight Attendant”, autênticas canções de ouro que enobrecem a música popular. Canções com gente lá dentro. (8/10)
Nuno M. Castedo
(Mondo Bizarre # 16)
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