KAADA
THANK YOU FOR GIVING ME YOUR VALUABLE TIME
CD Ipecac/Sabotage
O nome John Erik Kaada poderá não dizer muito a muita gente. Não admira. É norueguês, acabou de editar o seu álbum de estreia a solo (pela prestigiada Ipecac de Mike Patton) e a sua música não se pauta propriamente por coordenadas fáceis de seguir ou de descrever. Não espanta, pois, que o visionário Patton se tenha desde logo interessado em mostrar o trabalho deste jovem nórdico ao mundo. Corria o ano de 1987 quando o incipiente músico John Erik Kaada comprou o seu primeiro sintetizador, um velho Casiotone. Depois desta primeira experiência embrionária com a música feita com recursos electrónicos e digitais, começou a adentrar-se cada vez mais no mundo insofismável da electrónica. Compôs diversas bandas sonoras para curtas e longas-metragens e chegou até – pasme-se! – a ganhar o prémio Golden Clapperboard (a versão norueguesa do Óscar) pela sua contribuição para a música feita para cinema. Passou por diversas bandas até que estabilizou por uns anos no projecto Cloroform, um grupo que vagueava pelos mares revoltos da improvisação, do jazz e do experimentalismo mais anárquico. Conseguiram editar quatro álbuns até à dissolução dos Cloroform, em 2001 (em Portugal, ao que se sabe, não chegou nenhum espécime desses álbuns). Kaada – nome pelo qual agora é mais conhecido – não se ficou pelas bandas sonoras para cinema, tendo-se concentrado, nos últimos anos, a compor este desconcertante “Thank You For Giving Me Your Valuable Time”. E o desconcerto ao ouvir este disco concretiza-se, precisamente, pelo facto de nos criar a ilusão de estarmos na presença de um disco de r&b, pop kitsch, blues, soul, e rock dos anos... 50 e 60. Nada mais errado. John Erik Kaada pega nesses géneros de décadas passadas e remonta-os de forma arrasadoramente criativa. Um disco onde o divertimento, a excitação, a descoberta e a bizarria de associações estéticas, assumem contornos de puro delírio electro-retro pop. Kaada sampla meticulosamente fraseados melódicos e rítmicos de discos antigos e trabalha-os acrescentando instrumentos e vozes. No fundo, trata-se de uma original e acutilante abordagem à electrónica reciclada através do recurso a elementos musicais de antanho. “Thank You For Giving Me Your Valuable Time” perfila-se, portanto, como um dos candidatos a um dos lugares do pódio referente aos melhores discos de 2003. E as comparações com o universo musical distorcido dos Mr. Bungle não são de todo descabidas... (9/10)
Vistor Afonso
(Mondo Bizarre # 15)
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