MR. DAVID VINER
THIS BOY DON’T CARE CD Polydor
David Viner, 24 anos, só começou a compor canções depois do tio lhe ter oferecido uma colecção de discos de folk e blues. Diz que Reverend Gary Davis é o seu músico preferido e tem disponível no site oficial uma biografia em que conta como foi encontrado nas margens do Mississipi, embrulhado em cobertores, por um grupo de velhos bluesmen. Compondo o retrato, críticas de concertos relatam ser-lhe habitual passar as primeiras músicas tentando aproximar-se o mais possível de Blind Willie Johnson ou Blind Lemon Jefferson – ou seja, fingindo ser cego.
Assim sendo, façamos-lhe a vontade. Viner é de Londres e não sabemos se alguma vez se aproximou do Mississipi, mas isso é secundário. Se a sua história é digna da mitologia blues – roadie dos Von Bondies, é obrigado, depois de lhe descobrirem o talento, a subir a palco numa cidade perdida no Texas; estrear-se-ia em disco homónimo pouco depois – a sua música, agora, é também toda ela feita da essência do género. Um contar das histórias do dia que passa como se fossem mais importantes que rotina do quotidiano, um abrir a alma sem medo da revelação do seu interior. Se no álbum de estreia se revelava um intérprete bem-humorado, dotado e convincente, agora, com “This Boy Don’t Care”, o caso torna-se mais sério. Numa altura em que celebrar o nascimento de mais um singer-songwriter é tão inédito como encontrar um lisboeta na Costa da Caparica num fim-de-semana de Agosto, Mr David Viner consegue o feito de não ser apenas mais um. Novamente ladeado pelos Soledad Brothers, novamente assumindo como referências basilares o blues americano e a folk inglesa – com Dylan sempre por perto –, consegue reunir ao estimulante da forma conteúdo equivalente. Viner não fala de muito. Fala de raparigas, de traição e luxúria e de raparigas novamente – os temas abordados por oitenta por cento dos blues compostos até aos dias de hoje –, contudo, fá-lo de uma forma que não denuncia repetição de fórmula; vemo-lo antes como novo elo a acrescentar a uma longa linhagem. Mr David Viner é um contador de histórias, um óptimo contador de histórias, e envolve-as em música que é tradicional sem ser tradicionalista. Há sabor a pântano de Nova Orleães no piano e guitarras circulares de “Goblin In My Bread”, encontra-se o lirismo de Tim Hardin em “Don’t Take It To Heart”, o romantismo inocente de Donovan em “My House My Home” e resume-se todo o country blues na alegria altiva de “Nobody’s Business”. Mas, com estas canções na memória, quando nos deparamos numa rádio com a versão ao vivo, não editada, de “Should I Stay Or Should I Go”, dos Clash, não estranhamos a escolha. Afinal, é apenas uma outra história para Mr David Viner contar. (8/10)
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 20)
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