Discos
THE PONYS
CELEBRATION CASTLE CD In The Red/Sabotage

Em “Laced With Romance” os Ponys apresentaram-se como um híbrido inusitado. Sobre os feed-backs e o abandono rock’n’roll, importados directamente de Detroit, caía negrume de urbano depressivo que se recusava a aceitar a condição e, sem parar para reflectir, descobria escapatória num refrão gritado como se a vida dependesse disso – pop voraz ou pop anti-pop, digamos. Nos Ponys, a desolação pintada com as gradações de negro dos indies britânicos de 80, colidia com a urgência dos eternamente insatisfeitos garageiros de todas as épocas e, do choque, nasceu música que, aqui e ali, foi sendo considerada exageradamente o futuro de qualquer coisa. Dois anos depois, “Celebration Castle” vem-nos confirmar que os Ponys não são o futuro de nada. Mas fá-lo da melhor forma possível, ou seja, oferecendo-nos um presente, o deles, que se desvia dos engarrafados caminhos seguidos pelo grosso da população pop mais mediatizada, e nele acelera sem pestanejar. Geneticamente, pouco se alterou neste segundo disco. Os Ponys continuam a ser a mesma confluência de estímulos, ponte estendida entre uns Estados Unidos de rock’n’roll visceral e um Reino Unido de experimentalistas sónicos com olhos fixos nos sapatos. A diferença, muito simplesmente, é que “Celebration Castle” tem melhores canções. E tem-nas porque os dois universos em confronto – o mais americano, electricamente descontrolado, de Jered Gummere, e o mais britânico, pop e textural, de Ian Adams – decidiram encontrar-se definitivamente num guerrear que cria a energia vital e a premência que lhes faltava antes e que sempre parece faltar, por exemplo, aos muito interessantes, nunca imprescindíveis Love As Laughter. “Celebration Castle” é o sítio onde o jingle-jangle dos Orange Juice desencadeia labaredas Stoogeanas, o palco onde os Sonic Youth dançam como Mick Jagger e gingam como Keith Richards, uma viagem de Tom Verlaine até fábrica abandonada de Manchester, um abraço demorado entre os Byrds e os Jesus & Mary Chain e o momento em que o psicadelismo decide que os perigos de “freak your mind” são tão ou mais satisfatórios que a busca de epifanias “mind expansion”. Tudo isso são os Ponys criando-se como banda de corpo plenamente definido que inscreve a sua marca no presente e, ao fazê-lo tão ostensivamente, assegura que o futuro lhe prestará atenção. (8/10)

Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 23)