Discos
QUEENS OF THE STONE AGE
SONGS FOR THE DEAF CD Interscope/Universal

Anunciado há já longo tempo e sistematicamente adiado, o terceiro álbum dos Queens Of The Stone Age vale definitivamente a espera. Apanhando-os num momento de graça - já que a banda tem vindo a crescer de popularidade e de reputação graças a uma extensa digressão promocional e às atenções conseguidas com o anterior “Rated R” - “Songs For The Deaf” é o que resulta de um momento de excepcional pujança criativa e clara confiança nas capacidades dos músicos intervenientes neste projecto pouco convencional. É um disco desconcertante às primeiras audições. Com momentos de energia maníaca seguidos de quebras provocadas pelos interlúdios humorísticos espalhados pelo meio do disco. Com canções bastante “amigáveis” para as FM’s que alternam com sessões de berraria alucinada. E depois a sensação vagamente esquizóide - mas também refrescante - de ouvir as vozes alternadas dos vários vocalistas intervenientes, com os seus estilos peculiares, entre os quais Josh Homme, Nick Oliveri e Mark Lanegan. Resumindo: “Songs For The Deaf”, a começar pelo título, parece ser um manual de tudo o que não se deve fazer num álbum rock, sobretudo nos confrangedores tempos que correm.

Mas mais que um desfilar de piadas inconsequentes e palermices avulsas, muito ao gosto de uma facção de público que se pretende radical, “Songs For The Deaf” respira o tipo de irreverência non-sense que tem realmente graça e é provocatória, em particular no que diz respeito às bocas que têm a ver com a rádio. Mais sério se torna o caso quando nos apercebemos do calibre das canções aqui incluídas. De facto, este álbum contém uma impressionante colecção delas. Canções poderosas, irrequietas, cheias de groove, repletas de melodias viciantes e de uma energia que rapidamente põe qualquer desprevenido a bater o pézinho. O “robot rock” (o termo é invenção dos próprios) de Josh Homme com os seus riffs tão desconcertantes quanto maquinais é aqui levado à perfeição, como se todos os anos passados a tocar com os Kyuss não tivessem sido mais que ensaios para aqui chegar. O “stoner” já está longe e as lições aprendidas com os Black Sabbath também. Isto agora é em definitivo um campo próprio, com o estilo peculiar de tocar guitarra de Homme a liderar o processo, mas também com as inequívocas harmonias vocais entre os guitarristas, a que se acrescenta agora a propulsão turbo de Dave Grohl, o antigo baterista dos Nirvana que decidiu tirar umas férias dos Foo Fighters para tocar de novo com uma das bandas rock mais excitantes do planeta.

“Songs For The Deaf” é, portanto, o produto de um colectivo de músicos de excepção num momento francamente excepcional, mas sobretudo o culminar de uma visão extremamente exigente a nível criativo e estético. E é uma gravação com os temperos certos para se tornar um clássico: é música forte mas imaginativa, irreverente mas sentida, personalizada mas acessível. Tudo, afinal, o que um magnífico álbum de rock’n’roll pode e deve ser. (9/10)

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 12)