SCOUT NIBLETT
I AM CD Secretly Canadian
A indústria da pornografia “home-made” floresce como nunca antes. Quando se trata de algo tão profundamente íntimo como a sexualidade, muitas pessoas preferem ver algo real, algo que tenha a ver com elas, algo com que se identifiquem; não uma mistura de fantasias plastificadas com simulações ridículas embrulhadas num pacote anti-séptico. Os corpos das pessoas comuns não são sempre bonitos, muitas vezes são grotescos. Os gemidos que largam não são sempre de prazer, muitas vezes são de dor. É esta a realidade. E é esta realidade que atrai os seres humanos. Com as devidas reservas, pode-se encontrar nesta constatação um paralelismo com a música de Scout Niblett – ou a paixão pela música também não é algo de eminentemente pessoal? É. Portanto, ficar imediatamente fascinado pela crueza, pela brutalidade, pelo imperfeição de uma canção completamente despida de todos os adornos que décadas de refinamento da música popular tornaram obrigatórios é tão natural como vermos a nossa imagem reflectida no espelho. Scout Niblett faz canções apenas com bateria e voz, adicionando-lhe, aqui e ali, uma guitarra tocada de forma tão amadora que impressiona. A voz é tosca, mas de uma riqueza expressiva tocante. Todas estas imperfeições são mostradas sem o mínimo de pudor criando um clima de desconforto permanente que, em vez de ser disfarçado, é simplesmente ignorado. Não há aqui elegia ao erro, apenas absoluta negligência. Surpreendentemente, “I Am” vem com a assinatura de um produtor – Steve Albini – mas cedo se torna evidente que este não fez mais que carregar no “rec” e misturar duas ou três pistas. A sensatez implícita nesta atitude torna-se evidente a ouvir o resultado final: qualquer tentativa de moldagem transformaria um notável exercício de humanidade na treta mais pretensiosa alguma vez editada. (9/10)
Diogo Homem Marques
(Mondo Bizarre # 17)
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