Discos
STEALING ORCHESTRA
THE INCREDIBLE SHRINKING BAND CD Zounds Records

Depois dos seis prémios conquistados nos Prémios Maqueta 1998, depois do impacto que constituiu “Stereogamy” (2000) no panorama musical nacional, depois de mais de três dezenas de actuações ao vivo, depois de diversas participações em colectâneas e da experiência consolidada ao longo dos últimos anos, o projecto concebido pelo imprevisível João Mascarenhas, volta a revelar ao mundo um novo trabalho de originais. A “orquestra do gamanço” sempre foi perita em apropriar-se de material alheio para produzir algo novo, ou algo que, partindo do original, constituísse uma revigorante reciclagem estética onde o sarcasmo, a ironia e o surreal são elementos preponderantes. “Stereogamy”, fruto das suas elaboradas teias manipulativas (que iam do rock à electrónica de jogos de vídeo, da música latina a ambientes circenses, da ficção científica de série B ao easy-listening) era um trabalho no qual o prazer da escuta se tornava proporcional à própria imprevisibilidade musical. O imaginário pop kitsch, o referencial surrealista, os ícones da cultura de massas e o lado lúdico da música foram, e continuam a ser, arquétipos quase obsessivos no momento da abordagem artística de João Mascarenhas e comparsas. Donde, a edição de “The Incredible Shrinking Band” (título adaptado de um filme americano de série B de ficção científica de 1957, “The Incredible Shrinking Man”) venha apenas corroborar e confirmar isso mesmo, mas com algumas diferenças: estes Stealing Orchestra têm outra madureza, outra acutilância, outra sensibilidade. Musicalmente, somos perpassados por uma torrente diversificada de sensações. Rock tresmalhado, valsas traficadas, melodias populares à solta, inesperadas colagens sonoras, devaneios easy-listening, ruídos electrónicos, reminiscências do fado, humor monty pythoniano, ambientes lounge, bandas sonoras de filmes série Z, funky e latin beats, declamações solenes, etc. Para além disto, a notável produção do disco ajuda a perceber a minúcia com que esta música foi idealizada e construída. Não esquecer, já agora, o radioso grafismo de todo este “The Incredible Shrinking Band”, sobretudo, as composições gráficas de Armando Brás, verdadeiro “ready maker” de imagens profusamente sugestivas e complementares às propostas sonoras germinadas nas cabeças desta “incredible shrinking band”. (8/10)

Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 16)